Política

UE e Mercosul selam acordo comercial histórico

A União Europeia e o bloco Mercosul assinaram no sábado o tão esperado acordo comercial, selando um dos maiores acordos de livre comércio do mundo, após mais de 25 anos de negociações e repetidos impasses políticos.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o Presidente do Conselho Europeu, António Costa, participaram na cerimónia em Assunção, Paraguai, ao lado de líderes do Mercosul da Argentina, Uruguai e do país anfitrião, Paraguai. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, um dos principais defensores do pacto, não compareceu, delegando representação ao seu ministro das Relações Exteriores.

“Este acordo envia um sinal forte ao mundo”, disse von der Leyen na cerimónia. “Reflete uma escolha clara e deliberada. Escolhemos o comércio justo em vez das tarifas, escolhemos uma parceria produtiva e de longo prazo.”

A assinatura marca o culminar de uma batalha política contundente dentro da UE que só superou o seu último obstáculo na semana passada, quando os Estados-membros apoiaram o acordo por maioria qualificada, após uma enxurrada de concessões de última hora. A França, a Polónia, a Áustria, a Irlanda e a Hungria opuseram-se ao acordo, enquanto a Bélgica se absteve.

A atenção agora se volta para a ratificação.

O acordo ainda terá de ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelas legislaturas nacionais de ambos os lados do Atlântico, onde se espera que a oposição – especialmente de grupos agrícolas – continue feroz.

Se for totalmente ratificado, o acordo criará uma zona de comércio livre que abrangerá mais de 700 milhões de pessoas em toda a Europa e América Latina. Mais de 90 por cento das tarifas sobre as exportações da UE seriam eliminadas gradualmente ao longo do tempo, abrindo novos mercados para os fabricantes europeus, especialmente nos sectores industriais.

Entretanto, os países do Mercosul obteriam maior acesso ao mercado da UE para produtos agrícolas ao abrigo de sistemas de quotas rigorosos concebidos para proteger sectores europeus sensíveis, como a carne bovina e as aves.

Von der Leyen enquadrou o acordo como uma vitória estratégica, argumentando que reforça o comércio baseado em regras num momento de crescente fragmentação geopolítica. As autoridades da UE vêem-no como uma forma de reafirmar a influência na América Latina num contexto de intensificação da concorrência da China e de crescente incerteza em torno da política comercial dos EUA.

Mas o acordo teve um preço político elevado.

Para conquistar governos céticos, a Comissão prometeu 45 mil milhões de euros em apoio adicional aos agricultores da UE, atenuando a resistência de países preocupados com o facto de as importações baratas prejudicarem os produtores nacionais.

O presidente francês, Emmanuel Macron, emergiu como um dos perdedores mais proeminentes do pacto. Apesar dos esforços sustentados para bloquear ou atrasar o acordo – citando a pressão do sector agrícola francês – Paris não conseguiu reunir uma minoria bloqueadora. A Itália acabou por apoiar o acordo depois de obter salvaguardas e compromissos de financiamento para os seus próprios agricultores.