Se não pudesse ver nem ouvir, visitava a Viagem Medieval?

Se não pudesse ver nem ouvir, visitava a Viagem Medieval?

•  Pela primeira vez, a Viagem Medieval preparou uma Caça ao Tesouro Medieval Acessível | Foto: Ventura Santos

Texto: Tânia Silva 

Perceber a importância de uma Viagem Medieval inclusiva passa por um exercício rápido de imaginação. Atrevo-me e começava por pedir, especialmente a quem já a visitou, que o experimente fazer de olhos vendados ou ouvidos tapados — uma tarefa que surpreende porque a Viagem Medieval é também uma viagem pelos nossos sentidos. O rufar dos tambores, os gritos dos pedintes, os cheiros da praça da alimentação, as cores dos trajes, o trote dos cavalos, as marchas e continências dos guerreiros, são pormenores que a distinguem e perdê-los é limitar esta experiência. Neste sentido, e na sua edição de 2019, a maior viagem medieval da Europa mudou, tornou-se mais inclusiva e este ano dá resposta a muitas limitações físicas dos visitantes.

Vitória Silva, é natural de Santa Maria da Feira e portadora de deficiência auditiva acentuada. Como feirense que é, todos os anos, acompanha a Viagem Medieval, mas a edição de 2019 trouxe-lhe novas oportunidades, entre elas a possibilidade de participar nos eventos e compreender de forma autónoma algumas das histórias que se desenrolam. Pela primeira vez, a Viagem Medieval preparou uma Caça ao Tesouro Medieval Acessível, com duas edições e três espetáculos, “Era Uma Vez… D. Fernando”, “O Chamamento” e o “Festim Real”, acompanhados por interpretação em Língua Gestual Portuguesa. 

A praça da alimentação e as barraquinhas dão a Vitória outras aventuras e novas experiências — a jovem feirense comunica em mímica e aqui continua dependente da simpatia e paciência de quem a atende. “A comunicação é mais ou menos razoável. Se falarem muito rápido não consigo perceber absolutamente nada, mas se falarem com calma consigo perceber e vamos comunicando uns com os outros”.

As barreiras auditivas que separam Vitória da maioria dos visitantes, nunca a demoveram de visitar o evento e este ano tiveram precisamente o efeito inverso.  Vitória sentiu que a Lingua Gestual Portuguesa deveria chegar à Viagem Medieval, contactou a Câmara Municipal e prontificou-se a colaborar.  

Na companhia de Vitória encontramos Maria Silva e Tiago Vieira. Maria Silva, tem 23 anos, é natural de Aveiro e esta foi a sua primeira experiência na Viagem Medieval — “é tudo a minha primeira vez para mim, estou muito contente e ansiosa por participar no jogo”.  Já Tiago Vieira, natural de Vila Nova Gaia, é um visitante assíduo da Viagem Medieval, mas este ano dá os parabéns à Câmara Municipal por introduzir Lingua Gestual Portuguesa (LGP) no evento. 

Tiago Vieira que integra a divisão juvenil da Associação de Surdos do Porto (clique no nome para conhecer melhor) , falou da sua experiência pela Viagem Medieval, onde ficou claro que Portugal tem um oferta recreativa pouco abrangente para estes jovens que em quase todos os eventos enfrentam dificuldades de acessos. Tiago explica que objetivo principal da associação passa por inverter esta tendência e “criar acessibilidades em defesa de uma vida em sociedade de forma independente”. 

A importância deste convite é definida nas últimas palavras de Tiago, “estou muito contente com o convite feito pela Câmara de Santa Maria da Feira e que aceitamos de imediato. Um evento com acessibilidade para pessoas surdas é muito diferente e o facto de ter LGP torna-o num ambiente ainda mais perfeito. É também uma forma de mostrar à sociedade o que é a comunidade surda. Vamos sempre tentar que haja inclusão e uma mistura de forma indiferenciada porque é esta a nossa luta – em nome da associação agradeço muito o convite”. 

Um evento inclusivo

 Na edição 2019 a Viagem Medieval é acessível e disponibiliza visitas guiadas inclusivas com interpretação em Língua Gestual Portuguesa, visitas orientadas em mobilidade reduzida e também orientadas para invisuais. 

Os espetáculos “Era Uma Vez… D. Fernando”, “O Chamamento” e o “Festim Real”, em datas específicas, são acompanhados, por interpretação em Língua Gestual Portuguesa. As datas e os respetivos horários estão disponíveis na Loja Interativa de Turismo, onde estão à disposição cadeiras de rodas para empréstimo gratuito.

• História da Viagem Medieval em braile

Este ano, pela primeira vez, a organização preparou uma Caça ao Tesouro Medieval Acessível, com duas edições. A primeira decorreu no dia 3 de agosto e contou com a participação de 17 pessoas, sendo que seis pertencem à Divisão Juvenil da Associação de Surdos do Porto. A próxima edição da Caça ao Tesouro Medieval Acessível está agendada para, hoje,  10 de agosto, na Praça da Nau.  

O custo dos bilhetes diários e pulseiras têm também preços reduzidos. Os visitantes com deficiência e/ou mobilidade reduzida têm um desconto de 50% em qualquer tipo de bilhete de acesso ao recinto. A Viagem Medieval oferece o bilhete para o acompanhante nos casos de ausência de autonomia dos visitantes com deficiência e/ou mobilidade reduzida. A entrada principal (junto às Piscinas Municipais de Santa Maria da Feira) e o estacionamento junto a este local são os que reúnem as condições necessárias para pessoas com mobilidade reduzida.

A história da Viagem Medieval em Terras de Santa Maria está também disponível em braille.

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