Salvar a barreira do coral vai passar por Lobão

Salvar a barreira do coral vai passar por Lobão

Empreendedorismo e preservação de mãos dadas na luta pelo coral

Lobão esconde a maior “maternidade de corais” de Portugal e uma das melhores da Europa. A história de um hobby que deu lugar a uma empresa, onde o lucro não se sobrepõe à paixão pela preservação de corais, e é acautelado com outras ideias como, por exemplo, a venda de água salgada.

Texto: Tânia Raquel Silva  | Fotografia: Ventura

Já perdemos ou danificamos, cerca de 20% dos corais do mundo. Dos que restam, cerca de 35%, estão em risco de nas próximas quatro décadas sofrerem o mesmo destino. Os números tornam-se ainda mais assustadores quando ficamos a saber que estamos a perder corais a um ritmo duas vezes mais rápido do que a floresta tropical. Para Carlos Mota, gerente e fundador, da empresa Fragário do Norte, sediada em Lobão, a propagação em aquários “é a solução para a preservação dos corais”, mas os aficionados começam, agora, a enfrentar proibições nas recolhas. “A Indonésia já proibiu a sua recolha e sabemos que a Austrália se prepara para fazer o mesmo. 

Assuste-se. 

Quer sentir a que velocidade o mundo está a perder os corais? 

Então clique AQUI para ver o “countdown” da barreira de coral.

Os governos optaram por proibir a captura de corais porque acreditam que assim os estão a proteger”. O aquariofilista é categórico ao afirmar que a “realidade é exatamente a inversa e a preservação da espécie passa obrigatoriamente pela sua extração e propagação em cativeiro, devolvendo-a aos oceanos quando as condições climatéricas assim o permitirem”. Uma tarefa impreterível à semelhança do projeto Svalbard Global Seed  (clique AQUI para conhecer) Vault considerado por muitos um dos edifícios mais importantes do mundo porque alberga milhares de sementes agrícolas que asseguram a continuidade das culturas e a suficiência de comida, em caso de catástrofes, mudanças climáticas ou conflitos mundiais. 

• Carlos Mota é o entusiasta que juntou o empreendedorismo à salvação da barreira de coral.  | Foto: Ventura

O aquariofilista de lobão acredita que este é o caminho a seguir no que diz respeito à preservação dos corais, porque “não são as recolhas  que os estão a matar os corais, mas sim o aumento das temperaturas do mar”. Falar da temperatura ideal na vida de um coral é falar de uma temperatura média de 25 graus, mas o ano passado, na barreira da Austrália, Carlos Mota, encontrou temperaturas na casa dos 36 graus. “Estamos a falar em água do mar com a temperatura de caldo, enquanto estes valores não baixarem, os corais não vão sobreviver. Reverter esta situação implica adotar hábitos de vida que diminuam o efeito estufa e por consequência as temperaturas das águas, mas infelizmente não vejo essa a realidade a acontecer nos próximos 50 anos”. O aquariofilista alerta, por isso, para a necessidade das autoridades compreenderem este processo de extinção, afim de poderem adotar medidas protecionistas verdadeiramente eficazes. “Se os governos percebessem o porquê deste desaparecimento, com certeza que deixariam retirar o maior número possível de espécies, para mais tarde as conseguirmos devolver aos oceanos e posso garantir que os corais reproduzem-se com uma facilidade incrível”. 

 

Aquariofilia: um hobbie

 

A história da Fragário do Norte, começa há doze anos, numa feira de aquariofilia, onde Carlos Mota teve o privilégio de privar com “as grandes carolas da aquariofilia” que entre outras coisas lhe disseram que os corais eram uma espécie passageira. Apesar de existirem há cerca de 30 a 40 mil anos, dentro de 50 anos iriam deixar de existir”. Carlos Mota regressou a casa, mas “aquelas palavras ficaram-me na cabeça”. O presságio dos corais aguçou a curiosidade do aquariofilista que achou que estava na hora de “aprender a propagar. Fui então que montei o meu primeiro aquário e esporadicamente vendia aquários porque acumulava muitas espécies.”

 

A Fragário do Norte

 

É impossível visitar a Fragário do Norte e não deixar de sentir uma ligação emocional com a loja e a natureza. As cores, os peixes, os movimentos dos corais e das algas, transformam uma simples visita numa experiência sensorial que se intensifica quando chegamos à “maternidade dos corais” e aí sim, sentimos o cheiro do mar. 

“Temos à volta de cinco mil peças de reprodução e somos capazes de ter entre 500 a 600 espécies diferentes – umas são caríssimas outras bastante mais acessíveis, o preço vai pela raridade”, explica Carlos Mota ao confessar que aquilo que “realmente gostamos de fazer é de criar coral”.

Tudo isto sobrevive à custa de um trabalho de 24 horas, onde os computadores assumem um papel vital ao controlarem as medições de aquecimento, resfriamento, pH e salinidade.

 

O mundo compra em Lobão

 

“Vendemos para toda a Europa e fechamos agora um contrato que nos permite vender para qualquer parte do mundo”. Como qualquer outro negócio onde a procura é superior à oferta, no último ano o valor dos corais quase que quadruplicou, “um fragmento que o ano passado valia 25 euros, vale agora 80 a 770 euros”. Quando se fala na venda de corais, falamos em fragmentos, “refiro-me a uma pedrinha pequenina porque e é isso que vendemos para a Europa inteira”.

•  No “viveiro”, peixes e corais bébé convivem – tudo tem de estar certo: temperatura, luz, PH da água. | Foto: Ventura

Os corais mais caros 

 

“Para já os corais mais raros são sempre os de propagação porque se conseguem cores melhores e formatos diferentes”. É o caso de “Jason Fox” um coral que nasceu nos Estados Unidos. 

 

Nº 1 na construção de aquários

 

“Na questão de fabricação de aquários somos a empresa de ponta no país. Em Portugal quem quer um aquário de referência tem de vir a Lobão”. A qualidade do serviço é, para Carlos Mota, a razão deste galardão. “Desde que o cliente chega aqui e pede um aquário, providenciamos um serviço completo que passa pela montagem até à formação de como cuidar dele”.

 

Na piscina e no “Subenshi”

 

Em Barcelos, encontra-se o aquário mais excêntrico que a Fragário do Norte já construiu. Ao contrário do que possamos imaginar o destaque não vai para a excentricidade do conteúdo, mas sim a localização: a parede de uma piscina interior. 

O icónico restaurante “Subenshi”, em Aveiro, é a casa do maior aquário construido por Carlos Mota. Ao todo, seis metros de comprimento, por um metro e meio de altura, com capacidade para 10.000 litros de água. 

 

Zero clientes da Feira

 

“Temos clientes de Madrid, de Viseu, do Algarve e de todos os pontos do país que nos visitam regularmente, mas é curioso que de Santa Maria da Feira não temos nenhum”. O mercado Alemão é o seu principal cliente, o que é natural sendo “o país onde a aquariofilia tem mais força”, explica Carlos Mota. 

 

Reparar sistemas

 

O que mais faz é o que menos gosta de fazer: “Em Portugal o que mais fazemos é reparar sistemas. Grande parte das lojas de aquariofilia não percebem o que estão a vender, os clientes vêm os peixes a morrer, fartam-se e desistem, quando não são redirecionados para nós”. O aquariofilista lembra que “se quiser tratar de um cão não faltam veterinários, mas se quiser tratar de um peixe quem é que percebe?”. 

 

Temos a melhor água do mar da Europa  

 

Numa visita a uma feira de aquariofilia em Itália, Carlos Mota, deparou-se com uma tentativa de venda de água do mar. Mal sabia o vendedor, norte-americano, que acabava de criar o seu maior concorrente no mercado alemão.

“Portugal tem a melhor água da Europa” – diz Carlos Mota, e ainda atesta que quem o comprova são os maiores laboratórios da Europa. Num mercado em que se consome 400 a 500 milhões de euros por ano em água do mar, foi só pedir a um laboratório alemão para confirmar a qualidade água portuguesa e a partir daí pôr o projeto em papel. “Portugal tem recursos fora de série pena serem tão mal aproveitados”.

 

• Carlos Mota lembra que a atenção ao pormenor é fulcral na subsistência do coral. | Foto: Ventura

Os mitos e o Nemo

 

Nemo continua a bater recordes.

A febre do Nemo veio para ficar e o peixe-palhaço continua a ser “o que mais vende e também já é possível criar em cativeiro”, diz Carlos Mota que confirma que em  Portugal já há várias pessoas a fazê-lo. 

O mito do globo.

Um peixe de água doce pode perfeitamente viver num globo, mas Carlos Mota alerta para as condições mínimas que são: “mudar 10% da água todas as semanas, se tiver um globo com 20 litros e mudar 2 litros por semana a consegue manter o peixe com muita qualidade de vida”.

 

O mito do iodo 

A água do norte não tem mais iodo do que a do sul. É um mito, adotado até por alguns médicos, que tem passado de geração a geração, mas que Carlos Mota fez questão de testar. Conclusão: “é falso a água do mar do norte tem 60 miligramas de iodo, o mesmo valor que no resto do mundo. Nem mais, nem menos.” 

 

 

Faça uma visita à Fragário do Norte e encante-se, pode clicar AQUI, ou dê uma voltinha com a sua família e vá a Lobão à R. Dr. Mota Pinto, onde será recebido num ambiente familiar e bem disposto.