Opinião: A crise da Direita

Opinião: A crise da Direita

As eleições europeias trouxeram a lume aquilo que já todos previam: a direita em Portugal sofre uma crise de confiança por parte dos eleitores.
Os comentadores da nossa praça têm associado essa crise ao esvaziamento ideológico e à falta de causas próprias dos partidos da direita.
Têm razão, mas não é tudo.

Ao associar-se à extrema-esquerda e ao conseguir manter o défice controlado, o PS entrou num espectro ideológico alargado, esvaziando aquele que era o grande propósito do PSD nos últimos anos: manter as contas controladas para evitar crises financeiras futuras.
Em troca de influência e poder de decisão em algumas causas típicas da extrema-esquerda (o fim das PPP na saúde, o fim das escolas com contrato de associação…), o PS conseguiu manter uma extrema influência sobre o PCP e BE, fazendo com que estes partidos, normalmente partidos de protesto e de vários e consecutivos pedidos de demissão dos Governos, passassem a ser partidos moderados, controlados e em clara oposição com os programas por si apresentados nos últimos anos. O Governo conseguiu adiar ao máximo uma auditoria à CGD e conseguiu até, imagine-se, injetar dinheiro no Novo Banco e BPN sem a “gritaria” habitual por parte do Partido Comunista e do Bloco.
Desta forma, ideológica e estrategicamente, o PS consegue cobrir o espectro desde a extrema-esquerda até ao centro direita.

Hoje, ainda que haja uma perceção do aumento dos rendimentos diretos, o governo consegue um défice baixo cortando (ou cativando) em serviços públicos e no investimento. Ninguém é capaz de dizer que a saúde, os transportes ou a segurança estão melhores do que há alguns anos, mas todos, sem dúvida, terão mais algum dinheiro no bolso no final do mês, ainda que o mesmo se esfume logo quando se vai a uma bomba de gasolina.
É esta perceção falaciosa de que se “está melhor” que a Direita não está a conseguir desmontar. A esquerda, que conseguiu os seus votos apelando a mais investimento público, consegue agora, com o pior investimento público de sempre, manter a sua reputação intacta e a Direita não consegue fazer passar uma mensagem convincente que demonstre que a crise que se vive na saúde, transportes e segurança, por ex., vai acabar por, mais dia menos dia, afetar todos. A Direita não consegue fazer passar a mensagem de que, apesar do país estar a crescer, corremos o risco de, a curto-prazo, ser o país que menos cresce na União Europeia e, cada vez mais, ficar entre os mais pobres.
Rui Rio, que chegou a líder do PSD com um discurso de que ia dar um “banho de ética” à política, não conseguiu sequer convencer os portugueses de que ter um governo assente em relações familiares é aquilo que há muito se tenta combater na política, um princípio para a prevaricação e um sintoma claro do que de mau a política tem tido nos últimos anos, com relações altamente duvidosas entre políticos, amigos de políticos, favorecimentos e casos de corrupção.
Num país onde se ouve à boca cheia que “a política são tachos”, o PSD não conseguiu ganhar um único voto ao partido que constituiu um governo de familiares e amigos.

E é aqui que a direita pode começar por ir buscar as suas causas: medidas sérias e concretas no combate à corrupção e ao favorecimento, regras claras para nomeações de familiares e amigos em funções públicas, regras claras para elementos do governo integrarem empresas que tiveram negócios com o Estado, uma lei clara e blindada para supervisionar as autarquias e os concursos públicos e/ou ajustes diretos. Ou seja, uma indefetível credibilização da governação em Portugal. A Direita não pode perder mais tempo a tentar ser parecida com o PS. Precisa de perder o medo de apresentar medidas de favorecimento à implementação de grandes empresas no país, para que os salários possam crescer de forma sustentada através da competitividade e não por decreto, assumir a redução de impostos às empresas para que possam criar mais emprego e mais bem pago e assumir preocupações ambientais, que não podem ficar de fora do programa de nenhum partido moderno e abandonar o conservadorismo dos costumes, muito dele totalmente desfasado daquilo que é uma sociedade moderna. O líder do PSD, seja ele quem for, tem de perder o medo de colocar o partido à Direita, mas rejeitando qualquer associação com a extrema-direita, com favorecimento à criação de emprego de qualidade, um partido implacável no combate à corrupção e ao favorecimento e que defenda uma cooperação alargada e proveitosa do Estado com o setor privado na saúde, na educação e nos transportes, com uma equiparação dos direitos dos funcionários públicos com os trabalhadores do privado, com uma mensagem clara, direta, que toque nos verdadeiros problemas das pessoas e que garanta que cada cêntimo que sai dos cofres do Estado seja devidamente investido e supervisionado.

Tradutor de profissão, entusiasta da estratégia de comunicação e do marketing digital. Militante social-democrata e liberal que tenta praticar desporto todos os dias. Defensor implacável da causa animal e orgulhoso malapeiro.
Paulo Pinto
Tradutor de profissão