Morreu depois de 10 horas sem vigilância no hospital da Feira

Morreu depois de 10 horas sem vigilância no hospital da Feira

O relatório termina pedindo “tudo e em qualquer dos casos com as legais consequências.”

▌ERS aponta para comunicação deficiente entre hospitais e falta de acompanhamento

O caso remonta a fevereiro deste ano quando uma mulher de 74 anos foi transferida do Centro hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho para o Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga — a perita médica chamada a intervir arrasa a conduta dos dois hospitais. 

M.S., como é denominada a vítima no relatório da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) tinha 74 anos, foi internada, no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNGE), em estado considerado grave, na sequência de um atropelamento em Canedo, no dia 27 de dezembro de 2018. 

A 4 de fevereiro e após um internamento de 39 dias onde recebeu tratamento médico, a idosa foi transferida para o Hospital de Santa Maria da Feira, onde veio a falecer, dois dias depois nos corredores do Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga (CHEDV), segundo a reclamação feita pelo filho da vítima — informação que o CHEDV nega no relatório enviado à ERS, onde assegura que a paciente “esteve na área de observação e não em corredor”.

 

A denúncia elaborada pelo filho da vítima desencadeou uma investigação por parte da ERS — o relatório apresentado pela perita médica chamada a pronunciar-se sobre a atuação dos médicos e hospitais arrasa a atuação de todos. 

A primeira falha apontada vai para a transferência entre hospitais; a perita considera que nunca deveria ter acontecido — “na posse da informação da inexistência de vagas para internamento na instituição de destino, o CHVNGE infringe uma regra que acredito ser básica, expondo a doente a uma instituição (CHEDV) que à data da transferência não dispunha de recursos que permitissem a prestação de cuidados condicentes com o seu estado clínico”. Opinião partilhada pela ERS que no relatório considera de “inadmissível a decisão do CHVNGE de transferência da utente sem que se encontrasse devidamente assegurada a continuação do nível de cuidados prestados”. 

Ainda na sequência da transferência, a informação que consta no relatório levanta graves questões sobre a conduta médica de quem pediu a transferência — o relatório aponta para a possibilidade de omissão de informação por parte da equipa médica do CHVNGE e falta de rigor profissional no atendimento do CHEDV.

“De acordo com as alegações do CHEDV esta instituição, na pessoa da Dra. M.G., não terá sido informada aquando do contacto telefónico efetuado pela equipa do CHVNGE sobre o facto de a doente se encontrar traqueostomizada, motivo pelo qual não terá sido possível uma prévia programação do nível de cuidados e consequentemente do local de alocação da doente nesse centro hospitalar”, diz o relatório ao sublinhar que “não obstante, esta eventual falha de comunicação verbal, a carta de transferência que acompanhou a utente expõe com clareza essa informação, bem como os cuidados de seguimento necessários e plano de descanulação que se encontrava em curso”.

Já no hospital da Feira, a vítima entrou pelo Serviço de Urgência, onde permaneceu até ao dia 6 de fevereiro, data do falecimento, sem nunca ter sido admitida no internamento da ortopedia – indicação dada pelo relatório elaborado pelo CHVNGE.  

Perante este cenário — uma permanência longa no Serviço de Urgências sem receber a vigilância e monitorização necessária — o filho da vítima tentou por, “diversas vezes”, “estabelecer contacto com o Hospital S. Sebastião”; sem o conseguir fazer, optou por elaborar uma reclamação que data o dia de entrada da vítima no S. Sebastião. No relatório, lê-se “deparando-se com o que estava a acontecer e sabendo que o estado clínico da sua mãe obrigava a uma permanente vigilância/monitorização (até porque tinha um tubo respiratório que precisava de ser limpo com frequência, de 2 em 2 horas pelos menos) e perante a dificuldade de estabelecer qualquer diálogo com o Hospital São Sebastião, apesar das inúmeras insistências, o aqui denunciante fez uma reclamação por escrito logo no dia 04.02.2019 (reclamação número 068), alertando para o que se estava a passar com a sua mãe e dos perigos que a permanência no serviço de urgência sem qualquer cuidado acarretava para o caso concreto”.

Na resposta aos cuidados prestados à vítima, o CHEDV garante que o Serviço de Urgência (SU) não falhou na vigilância e monitorização, mas o relatório apresentado pela perita médica da ERS põe por terra a defesa apresentada e explica. “De acordo com as alegações do CHEDV durante o período em que a doente permaneceu no SU esta esteve numa área de observação tendo sido realizada tabela de internamento e efetuados os registos competentes, referem ainda que na sala de observações o nível de observação e vigilância é certamente superior ao que receberia em internamento de enfermaria dado tratar-se de um local com circulação de profissionais e doentes durante as 24 horas do dia. De facto, apesar do SU ser um local com vigilância 24/h dia este não cumpre certamente o rácio médico/doente e enfermeiro/doente exigidos pela situação clínica em questão.”

Mais se acresce que nos registos disponibilizados não existe qualquer referência à prestação de cuidados à traqueostomia, numa doente que se encontrava a evoluir no processo de descanulação”. O relatório acrescenta ainda que:

 “de acordo com os registos/diários juntos aos autos pelo próprio CHEDV, a utente foi monitorizada, pela última vez, às 16h55 de dia 05/02/2019 – altura em que foi avaliada por Medicina Interna –, e aí permaneceu sem qualquer monitorização adicional até às 6h30 de dia 06/02/2019 – altura em que deu entrada na sala de ressuscitação em paragem cardiorrespiratória e veio a falecer”.

Sobressai ainda a conclusão da perita médica — que outra atuação poderia ter resultado noutro desfecho — “assim parece-me evidente que a alocação da doente em serviço de internamento com vigilância médica, de enfermagem e com terapeutas respiratórios poderia ter determinado um desfecho clínico diferente, pelo menos no curto prazo, não obstante a gravidade do quadro clínico nos fazer prever um mau prognóstico global com risco elevado de desfecho desfavorável a médio-longo prazo.”

A entrada da vítima pelo SU também mereceu reparo na queixa apresentada pelo denunciante, mas o relatório explica que “é por esta via que se faz de forma habitual, em várias instituições do SNS, a admissão de doentes provenientes de transferência inter-hospitalar. Tal prende-se com o facto de esta ser uma área comum às diversas especialidades médicas e cirúrgicas, constituindo assim um espaço físico de excelência para uma avaliação mais aprofundada e multidisciplinar do doente na sua chegada à instituição, não obstante, o Serviço de Urgência deve idealmente constituir um serviço de passagem ou curta estadia, não sendo compreensível que o doente aí permaneça por período superior ao estritamente necessário para a sua avaliação e estabilização”.  

A Entidade Reguladora de Saúde quer agora medidas concretas que garantam o acompanhamento dos utentes, para isso emitiu “uma instrução ao Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga”.

Entre outros pontos a instrução frisa que o CHEDV deve “evitar a permanência no Serviço de Urgência (SU) de doentes com indicação clara de internamento” e implemente “procedimentos que assegurem que, durante a permanência no SU, os utentes sejam devidamente monitorizados e acompanhados”.

Na conclusão apresentada no relatório, o Conselho de Administração da Entidade Reguladora da Saúde, sugere ainda que se apure “as responsabilidades concretas dos profissionais envolvidos”, nomeadamente através da Ordem dos Médicos e do Ministério Público. E enumera as responsabilidades que considera mais pertinentes: “(1) de quem autorizou a transferência da utente do CHVNGE para o CHDEV, tendo prévio conhecimento da inexistência de quarto disponível; (2) de quem negligenciou os cuidados adequados à situação clínica da utente M.S., permitindo que a mesma ficasse sem qualquer vigilância/monitorização durante longos períodos de tempo e (3) de quem negligenciou a prestação de cuidados de limpeza da cânula interna de traqueostomia, o que provocou o seu entupimento (entupimento do tubo de respiração), a paragem cardiorrespiratória da utente M.S. e subsequente falecimento da mesma”. 

O relatório termina pedindo “tudo e em qualquer dos casos com as legais consequências.”

Documentação

Pode ler aqui a deliberação do Conselho de Administração da ERS

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