Saúde

Hospitais privados da Bulgária no centro da tempestade política após encaminhamento ao tribunal da UE

A decisão da Comissão Europeia de levar a Bulgária ao tribunal superior da UE por isenções de longa data concedidas a hospitais privados para a compra de medicamentos provocou tensões políticas em Sófia.

Após quase sete anos de processos por infração, a Comissão decidiu levar o caso ao Tribunal de Justiça da UE (TJUE), argumentando que a legislação búlgara exclui ilegalmente os hospitais privados do âmbito de aplicação das regras da UE em matéria de contratos públicos.

A maior coligação de oposição da Bulgária acusou os partidos no poder de bloquearem os esforços para alinhar a legislação nacional com as regras da UE, protegendo assim os interesses instalados no sector da saúde. Durante vários mandatos parlamentares, foram feitas tentativas para alinhar a lei búlgara com a directiva europeia relevante, mas cada esforço encontrou resistência, principalmente do GERB e do DPS, disse o deputado búlgaro Bozhidar Bozhanov ao Diário da Feira.

“É uma resistência silenciosa – eles não explicam porque se opõem, mas sabemos a razão: estão a proteger aqueles que drenam recursos financeiros do Fundo Nacional de Seguro de Saúde”, disse Bozhanov, antigo ministro do governo eletrónico e co-líder do ‘Yes Bulgaria’.

Acrescentou que os deputados da coligação tentaram novamente alterar a lei depois de a Comissão Europeia ter anunciado o lançamento de um processo por infracção, mas a proposta foi mais uma vez rejeitada pela maioria dominante dominada pelo GERB e pelo DPS. “Vários estudos mostram resultados divergentes, mas, em qualquer caso, a falta de obrigação dos hospitais privados de realizarem concursos públicos custa ao Orçamento do Estado dezenas de milhões de euros”, disse Bozhanov.

A Comissão justificativa

“A legislação búlgara exclui atualmente alguns estabelecimentos de saúde privados da aplicação das regras da UE, mesmo quando recebem mais de 50% do seu financiamento de fontes públicas”, afirmou a Comissão no seu comunicado no mês passado.

Segundo Bruxelas, a isenção contida na Lei dos Contratos Públicos da Bulgária é incompatível com a definição legal da UE de “organismos regidos pelo direito público”. Durante anos, a Comissão insistiu que os hospitais privados na Bulgária deveriam ser obrigados a organizar concursos públicos para medicamentos, tal como fazem os hospitais estatais.

“As regras da UE em matéria de contratos públicos destinam-se a garantir procedimentos de concurso transparentes, justos e competitivos no mercado único. Aplicam-se às autoridades adjudicantes, incluindo organismos regidos pelo direito público – uma categoria de entidades que, embora não sejam de natureza pública, são financiadas principalmente pelo Estado ou por outros organismos públicos”, afirmou a Comissão.

Existem 116 hospitais privados na Bulgária, representando 34% de todos os hospitais do país. De acordo com os patrocinadores das alterações paralisadas, a diferença de preço do mesmo medicamento do mesmo fabricante entre hospitais públicos e privados pode atingir 14-15 vezes e, em alguns casos, até 28 vezes. Essa discrepância é mais pronunciada em tratamentos oncológicos.

Perigo de atrasos críticos

“A Lei dos Contratos Públicos é incompatível e até prejudicial para os hospitais privados”, afirmou a Associação Búlgara de Hospitais (BHA) numa carta dirigida ao Parlamento Europeu e à Comissão Europeia. A BHA argumenta que obrigar os hospitais privados a realizar concursos públicos atrasaria o fornecimento de medicamentos, enquanto os prestadores de cuidados de saúde privados continuariam a suportar os riscos de mercado.

Em vez disso, a Associação insiste que se o Estado pretender alterar a lei, deve introduzir um concurso centralizado dirigido pelo Ministério da Saúde para o fornecimento de produtos médicos – um mecanismo que afirma “comprovar que funciona para medicamentos”.

Os hospitais privados foram obrigados a organizar procedimentos de aquisição pública de medicamentos até 2016, altura em que a obrigação foi retirada da lei por iniciativa do GERB, que na altura dominava novamente tanto o governo como o parlamento. O caso surge num momento de instabilidade política num dos Estados-membros mais pobres e mais propensos à corrupção da UE. O governo nomeado com o mandato do GERB (PPE), o maior partido no parlamento, demitiu-se em 11 de dezembro.

O fator ‘hospital privado’

A questão é particularmente sensível porque a ausência de concursos públicos coloca os hospitais privados, em alguns casos, numa posição privilegiada em comparação com instalações estatais e municipais. Permite-lhes adquirir medicamentos através de empresas coligadas e aplicar preços mais elevados ao fundo público de seguro de saúde, em alguns casos à custa dos contribuintes.

Há um ano e meio, o parlamento adoptou alterações que limitam os preços de determinados medicamentos, mas estas medidas não resolveram a falta de procedimentos de concurso transparentes.

No âmbito do orçamento do Estado para 2026, o financiamento para cuidados hospitalares deverá aumentar 10%, com um número recorde de hospitalizações planeadas, apesar da diminuição da população. Prevê-se que a despesa pública total em hospitais atinja 2,3 mil milhões de euros, o equivalente a cerca de 2% do PIB da Bulgária.

(VA, BM)