Fez 25 anos que o Castelo da Feira foi a “mãe de todas as raves” em Portugal

Fez 25 anos que o Castelo da Feira foi a “mãe de todas as raves” em Portugal

Carlos Manaça sublinha que ainda hoje DJ’s nacionais e internacionais recordam a rave de ’94

▌Em 1994, milhares de pessoas de todo o país invadiram o castelo da Feira | Foto: Silva Inácio

Há 25 anos de algo muito especial acontecia no Castelo da Feira — pela primeira vez em 1100 anos as paredes de granito vibravam, não por um ataque bélico, mas por um ataque musical. 

Chamou-se “Feira Virtual”; foi uma das primeiras raves em Portugal e a maior até então a ter como palco um monumento nacional, trazendo a Santa Maria da Feira um cardápio de DJ’s de luxo com nomes como Danny Tenaglia, Rolando Pires, Rui Da Silva, Luís Leite, Luís “XL” Garcia, Rui Barros, Rob Di Stefano entre outros.

► Para melhor imersão temporal – este Artigo deve ser lido ao som de Jaydee, “Plastic Dreams” – clique na imagem para ouvir

Há um quarto de século atrás o mundo da música eletrónica era diferente — Danny Tenaglia, Jaydee, “XL” Garcia e Rui Da Silva, eram as estrelas do underground musical.

A história de uma rave contada pelo DJ Carlos Manaça, na altura, um dos muitos jovens presentes e que mais tarde trilhou um percurso gigantesco, partilhando atuações com os colossais da “dance scene” — Laurent Garnier ou Jeff mills, e em palcos tão famosos como a Ministry of Sound, em Londres.

Feira Virtual teve a organização da KAOS rec.; foi a mãe de todas as raves em Portugal e uma das maiores até então com um cartaz de grandíssima dimensão a “invadir” um monumento nacional — uma festa ainda, muitas vezes, recordada nos bastidores da música eletrónica portuguesa e quem lá esteve, público e artistas fizeram história.

Diário da Feira: Como é que foste parar ao Castelo da Feira?
Carlos Manaça: Era amigo de praticamente todos os DJs nacionais que atuaram, assim como do António Cunha, sócio da Kaos Records (Clique AQUI para oferecer um ‘like’ a esta editora bem Portuguesa) responsável pela produção do evento. Na altura, era o DJ residente da discoteca Cais 447 em Matosinhos  — uma das referências no norte a nível da eletrotónica mais “underground”.   
Ainda recordas o momento em que entrastes no castelo?
Foi a primeira vez que entrei no castelo de Santa Maria da Feira e como cheguei de manhã, (tinha estado a trabalhar no Cais 447 em Matosinhos) o impacto de ver milhares de pessoas àquela hora, ainda a dançar num castelo completamente cheio, foi brutal. 

“Lembro-me perfeitamente de subir a estrada para o castelo e ver muitíssimas pessoas sentadas nas muralhas, e de ver os moradores estupefactos com o que ali estava a acontecer… deviam ser umas oito ou nove da manhã e ainda chegava muita gente ao evento. “

Já sentias que fazias parte da elite da música eletrónica em Portugal?
Nessa altura havia já uma pequena “elite” de Djs que atuavam regularmente nestes eventos de música eletrónica. A nível musical eu era (e sou) um grande fã do Luís Leite e ele, mais uma vez, fez um grande “set” já de manhã e embora não tenha atuado nestes primeiros eventos, é certo que me sentia parte do grupo, uma vez que trabalhava na loja de música Bimotor (no Porto) como responsável pela importação de música dos USA e eles também trabalhavam na Bimotor, mas em Lisboa. 
 
O que veio de novo com Feira Virtual?
Anteriormente já tinham acontecido alguns eventos do género, totalmente de eletrónica, lembro-me do “Rave On” em fevereiro de 93, no Convento de S.Francisco, em Coimbra, e outro meses mais tarde no Castelo de Montemor-o-Velho, onde também estive presente. O evento no castelo de Santa Maria da Feira, em 94, foi sem dúvida o que trouxe um dos artistas que nessa altura estava em grande destaque no mundo inteiro, Jaydee pelo seu tema “Plastic Dreams” e Danny Tenaglia que começava já a ser um dos produtores de referência, mas ainda não tinha atingido o estatuto que tem hoje. 

A “Feira Virtual” no Castelo de Santa Maria da Feira ainda hoje é vista por muitos como a primeira grande “Rave” em Portugal pelo destaque que teve a nível mediático. 

▌Um jovem Carlos Manaça à esquerda observa Luis leite nos pratos | Foto: FB Carlos Manaça
E as autoridades foram de trato fácil? 
As autoridades não estavam em grande número e foram de trato fácil. Também é verdade que naqueles eventos nunca haviam problemas, aliás, nem me lembro de ver seguranças. Provavelmente estariam dois ou 3 perto da cabine só para salvaguardar os artistas, mas não estavam espalhados pelo evento, como agora acontece.
 
O efeito do som naquelas enormes paredes de granito terá sido diferente…
Lembro-me que o local tinha uma boa acústica comparativamente com a maior parte das discotecas da altura. A pista era num desnível, havia a barreira das muralhas que evitava alguma reflexão, mas como o castelo está num ponto alto, o som ouvia-se a muitos quilómetros de distância — mas o que mais me impressionou foi a potência e qualidade de som instalada. Muito melhor do que os festivais anteriores onde tinha estado (que já tinham tido um bom sistema de som), até por imposição dos artistas que atuavam.  

O sistema de som montado na “Feira Virtual” foi o melhor e o mais potente “sound system” utilizado num evento de música eletrónica até essa altura. 

Há alguma faixa que te tenha ficado na memória desse dia?
 Houve vários temas que me ficaram na memória nesse dia. Um deles foi o “Plastic Dreams” do Jaydee que quando tocou foi mesmo “o fim do mundo” — creio que foi o Luís Leite que o tocou pela manhã. Outro que me ficou na memória foi o último, tocado por Danny Tenaglia, depois de vários “encores”, a versão original de “Who Dares To Believe In Me” dos Believers (clique no nome para ouvir – whoo!). Era um dos meus temas favoritos da editora Stricly Rhythm na altura e ouvi-lo ali, naquele “sound system” àquela hora foi fantástico.

 Ainda há pouco tempo comentei isso com o Danny (Tenaglia) e ele ainda se recorda desse momento – até porque, na altura, ele estava a afirmar-se como produtor e essa era a sua mensagem: “Who Dares To Believe In Me”. 

O que achaste do público, agora tão ‘nineties’? 

 No evento encontrei muita gente que conhecia de Lisboa, do circuito de música mais underground — em 1994 era tudo ainda muito recente e havia uma grande mistura de público, como é normal. Havia aqueles que já tinham estado em eventos do género e sentiam-se “em casa”, mas havia muitos que era a primeira vez que estavam num evento daquele tipo e estavam parados, encostados às muralhas, a ver o que se passava.  

Já vieste a Santa Maria da Feira depois disso, o castelo ganhou um significado diferente? 
 Sim, é um facto, quando entro no Castelo tenho sempre a sensação de “déjà vu”.   
“Costumo ir à Feira Medieval, ainda este ano lá estive, e quando subo ao Castelo vem-me sempre à memória esse evento fantástico de 1994.” 
Um quarto de século é muito tempo ou foi ontem?
 25 anos é realmente muito tempo… em algumas coisas parece que foi ontem, mas noutras que foi há um século. A “dance scene” em Portugal passou por muitas alterações e muitas mudanças; e como estávamos a começar, havia ainda muita ingenuidade, éramos ainda muito “verdes”. Quando a música eletrónica ganhou  destaque, as coisas alteraram-se, infelizmente, nem sempre para melhor. Com o tempo as coisas têm vindo a regularizar-se e Portugal tem agora uma grande agenda de eventos de música eletrónica, um pouco por todo o país, o que revela que a nossa “dance scene” está melhor que nunca. 

Agradecemos à Sílvia pela foto que nos cedeu do evento, aproveite e dê uma vista de olhos à sua fantástica coleção de imagens no Flickr – Clique AQUI para aceder.

Carlos Manaça: hoje

Pensas que no mundo da música eletrónica está tudo igual?

 É claro que em 25 anos muita coisa mudou na música eletrónica em Portugal. Os Djs, que antes eram vistos como um simples empregado da discoteca que passava musica “para os clientes” passou a ser a “estrela” e a ser ele a fazer a clientela que se desloca ao evento / club. Embora isso pareça muito estranho às novas gerações de Djs, há 25 / 30 anos era o que acontecia e o DJ tinha mesmo que passar outros géneros de música, sem ser eletrónica – Pop, Rock, Reggae, um pouco de tudo. E, se soubesse falar ao microfone (era o meu caso), melhor ainda. Com o aparecimento das primeiras “Raves”, quer em discoteca (fizemos muitas no Cais 447, a partir de 1993) quer em eventos pontuais, a música eletrónica começou a ter mais importância e a chegar ao grande público, o que permitiu aos Djs tocar só esse estilo de música e muitos tornarem-se “freelancers”; coisa que nos inícios dos anos 90 era (quase) impossível — se querias mesmo ser DJ tinhas que ser residente numa discoteca.

E o teu trabalho atual, como divides a produção e os live-acts?

O meu trabalho divide-se em duas partes. Durante a semana, estou no estúdio a trabalhar em novos temas, a ouvir e a comprar músicas para as atuações do fim de semana ou a preparar as novas edições da Magna Recordings. Ao fim de semana atuo nos eventos. É essa a minha rotina semanal. Aos dias de semana vou para o estúdio por volta das 10 da manhã e termino às 20. Ao fim de semana normalmente atuo entre as quatro e as nove da manhã, depende um pouco dos eventos. 

Mas agora há também família … como encaixas tudo?

Encaixar o nosso trabalho com a família é sempre difícil. Os meus filhos sempre me perguntaram, quando eram mais novos, que tipo de trabalho eu tinha porque não estava em casa aos fins de semana, como estão os pais dos amigos. Como trabalho durante a semana e ao fim de semana, isso causava-lhes alguma estranheza. Perguntavam-me “pai, tu nunca tens folgas do teu trabalho?” Sempre tentei tirar algum tempo para eles, especialmente à segunda-feira que é o meu dia mais “complicado” — nem sempre foi fácil, mas sempre fiz questão de, durante a semana, tomar o pequeno-almoço com eles e levá-los à escola às 8h30 da manhã, por muito difícil que isso fosse para mim, especialmente à segunda-feira, porque no dia anterior (domingo) muitas vezes vou dormir por volta das oito ou nove da manhã…

Qual é o teu último trabalho que devemos ouvir com urgência?

Desde 2017 que não edito um tema original, é verdade que me tem faltado alguma motivação para produzir. O meu último original foi o tema “Lio” editado pela Beatfreak Recordings em 2017, mas em breve vou editar dois originais e uma remistura, por isso estejam atentos.

Para quando uma nova visita à Feira?

Ainda há poucos dias estive no 4 Ever, em Rio Meão, vou regularmente à “Cool Disco”; em princípio até final do ano vou voltar a atuar perto de Santa Maria Da Feira.

Queres deixar uma mensagem para os fãs de Santa Maria da Feira?

Continuem a ter esse espírito, sempre que vou a Santa Maria da Feira sou muito bem recebido e os eventos correm sempre muito bem. Há uma grande quantidade de pessoas que gosta de ouvir e de dançar ao som de Tech House ou Techno —  música que não está constantemente a tocar na rádio…

 


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