“Quando não estou a chorar, estou a rezar”

“Quando não estou a chorar, estou a rezar”

A história de uma visita, do encontro de duas gerações e de como todos podemos ajudar 

• Alunos da Escola da Cantina visitaram a D. Eugénia, levaram prendas, sorrisos e companhia 

Texto: Tânia Silva | Fotos: Ventura

Cinco minutos bastaram para perceber a importância deste projeto levado a cabo pela Junta de Freguesia de Stª Maria de Lamas e, sem perguntas, consegui a resposta a todas as minhas questões. “Quando não estou a chorar, estou a rezar”, é este o dia a dia da dona Eugénia, natural de Santa Maria de Lamas, que depois de perder a mobilidade vê a vida por uma janela que só abre quando recebe visitas. 
 
A solidão é um problema escondido das nossas freguesias e quando a testemunhamos é fácil de perceber porquê.  Ao contrário dos buracos das estradas, do lixo no chão, dos cêntimos que deixamos a mais nos parquímetros ou dos animais vadios que vemos nas ruas, este problema não nos atrapalha – porque não o vemos. Fica escondido entre quatro paredes e um telhado, mas é de longe mais grave. Envolve pessoas cuja solidão é tão grande que, tal como a dona Eugénia, pedem para ir para o céu quando se pergunta que sítio gostavam de visitar. 
 
Podia continuar a explicar o que é, de facto, a solidão com palavras de quem a sente até ao ponto de as lágrimas chegarem aos olhos: “dias e dias sozinha”, “saudades do meu filho que morreu”, “gostava de cuidar da minha casa”, “já passei muito, mas tinha a casa cheia de vida”, ou explicar como todos os dias anseia pela visita do vizinho, que apesar de ser de Braga, tem um enorme coração e, sempre que pode, vem a sua casa dar “dois dedos de conversa”. 
 

Mas para demonstrar como é fácil ultrapassar este dilema prefiro contar a história desta visita à D. Eugénia. Visitas que são, de facto, o que ela mais precisa.

Vou falar da Noa, do Francisco, da Inês, do Martin e da Lara, alunos do Jardim de Infância Lamas 3, mais conhecido por escola da Cantina, que, hoje, 29 de maio, levaram “minos, abraços, beijinhos, alegria, amor e uma prenda” a esta santamariana.  

Com uma canção de “bom-dia” as crianças apresentaram-se e logo mostraram que vinham de lição bem estudada, todos traziam uma pergunta para fazer: o que mais gostava de fazer quando era criança, se jogava futebol ou quando trabalhava o que fazia. Assim a D. Eugénia começou a contar a sua vida que nos levou a uma viagem no tempo pela alameda das suas memórias. E entre histórias, as crianças pediam para cantar, era justo, porque afinal tinham escolhido cinco músicas para apresentar – uma pausa deliciosa que inevitavelmente restaurava o sorriso na D. Eugénia. 

Visita sem chá e bolinhos não é visita – aqui aprendemos que não podemos recusar – e todos tiveram direita à merenda. 

 

• Meninos do Jardim de Infância Lamas 3 trouxeram vida à casa  

O que os intervenientes disseram

Lucídio Dias | Presidente da junta de Stª Mª de Lamas

O objetivo das visitas é proporcionar alguns momentos de profunda alegria. Procuramos saber quais são as dificuldades, as razões da solidão e do isolamento, se há familiares, se têm apoio e se são visitados por alguma instituição. 

Felizmente, temos algumas instituições que nos ajudam a minimizar este problema. Mais concretamente a Unidade de Saúde, a CERCI e a Associação Bem Estar. 

Santa Maria de Lamas tem obrigação de zelar pelos seus idosos.”

Maria João Oliveira | Educadora

“Penso que os idosos estão muito sozinhos e a nossa sociedade não está desperta para isso. Os idosos têm de ser muito mais acompanhados e por vezes as famílias não conseguem garantir essa companhia. Esperamos que ao trazer as crianças os adultos despertem para este problema. Repare na vontade que esta senhora teve em falar e de nos contar as suas histórias. São pequenos projetos como estes que vão ajudar as localidades a solucionar este problema. Isto é um projeto que vai continuar a avançar”

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