As autoridades búlgaras comunicaram um número recorde de internamentos hospitalares em 2025, num contexto de preocupações crescentes de que as hospitalizações estejam a ser utilizadas como instrumento para a apropriação indevida de fundos públicos de saúde.
Segundo dados do Sistema Nacional de Informação de Saúde (NHIS), os hospitais internaram 2,6 milhões de pacientes no ano passado, apesar de o país ter uma população de apenas 6,4 milhões. Só nos últimos quatro anos, as hospitalizações triplicaram, passando de 880 mil para 2,6 milhões anualmente.
É prática comum na Bulgária que os hospitais exortem os pacientes a assinarem documentos de admissão hospitalar simplesmente para se submeterem a exames médicos que não exigem internamento e para evitarem pagar os exames do próprio bolso.
Os hospitais, por sua vez, recebem do Estado o reembolso integral do respectivo percurso clínico. Durante anos, os especialistas alertaram que forçar os hospitais – tanto públicos como privados – a depender principalmente de fundos governamentais para hospitalizações ao abrigo da descrição das vias clínicas levou a uma fraude documental generalizada.
Pacientes do hospital nos corredores
A Agência Nacional de Receitas (NRA), que mantém o registo nacional de indivíduos com dependência do jogo, publicou dados chocantes que revelam a escala do abuso no sistema de saúde da Bulgária. Apenas no primeiro semestre de 2025, descobriu-se que quase 4.000 pessoas passaram algum tempo em salas de jogo, enquanto, segundo registos oficiais, deveriam ter sido hospitalizadas. Nestes casos, o Fundo Nacional de Seguro de Saúde (NHIF) é obrigado a multar o hospital e a exigir o reembolso dos fundos pagos pela hospitalização fraudulenta.
“Se necessário, outras instituições também serão notificadas, a fim de garantir uma resposta institucional coordenada, eficaz e atempada”, afirmou a agência tributária, sugerindo que poderá solicitar ao Ministério Público a abertura de processo-crime.
Relatório de dados da Comissão
O modelo de saúde da Bulgária continua fortemente centrado nos hospitais, com o número de camas a continuar a aumentar, de acordo com o perfil de saúde do país publicado pela Comissão Europeia.
“A afectação das despesas de saúde na Bulgária está fortemente orientada para serviços hospitalares e curativos. Em 2023, os cuidados hospitalares representaram 38% do total das despesas de saúde, bem acima da média da UE de 28%”, afirma o relatório da Comissão.
A Bulgária tem 8,6 camas hospitalares por 1.000 habitantes – 50% acima da média da UE. Em nítido contraste com as tendências europeias mais amplas, a capacidade hospitalar no país continuou a expandir-se nos últimos anos.
A ocupação de camas na Bulgária era de apenas 57% em 2023, bem abaixo da média da UE de 68%, informa a Comissão. Combinado com uma das durações médias de internamento mais curtas da UE, isto aponta para um modelo ineficiente e é um forte indicador de hospitalizações fictícias generalizadas.
Incentivos financeiros ineficientes
Os impulsionadores desta ineficiência residem na organização dos cuidados e nos incentivos financeiros: o acesso limitado aos cuidados de saúde primários devido a encaminhamentos restritos obriga os pacientes a esperar, a pagar do próprio bolso ou a ignorar completamente os cuidados primários, indo directamente para os hospitais.
Para 2026, o Fundo Nacional de Seguro de Saúde planeou um orçamento recorde de 5,28 mil milhões de euros, com quase metade dos fundos destinados a cuidados hospitalares – 2,3 mil milhões de euros para 2,3 milhões de hospitalizações planeadas, juntamente com dois milhões de procedimentos clínicos e ambulatórios.
Durante um debate parlamentar, o ministro da Saúde, Silvi Kirilov, também abordou o grave problema das internações hospitalares fictícias. “Eu não os chamaria de falsos, mas sim de ‘hospitalizações impróprias’. Em 1989, com uma população de 8,9 milhões, a Bulgária teve 800 mil hospitalizações. Hoje temos 6,4 milhões de pessoas e 2,3 milhões de hospitalizações. No ano passado, houve um caso de um paciente que foi hospitalizado 27 vezes”, disse Kirilov.
Os dados da Comissão Europeia mostram que as despesas com cuidados de saúde da Bulgária permanecem abaixo da média da UE, mas o país continua a subfinanciar os cuidados ambulatórios e a prevenção com os seus recursos limitados.
A Bulgária tem a taxa de mortalidade evitável mais elevada da UE e a esperança de vida mais baixa. Os búlgaros vivem em média seis anos menos do que outros europeus – 75,9 anos em 2024.
Isto deve-se tanto a fragilidades estruturais do sistema de saúde como a factores comportamentais. Os búlgaros não abandonaram hábitos nocivos: a percentagem de adultos que fumam diariamente é a mais elevada da UE e não diminuiu ao longo da última década. A mortalidade na Bulgária é dominada pelas doenças cardiovasculares, que representam mais de 60% de todas as mortes no país.
(VA, BM)




