Opinião: O Perfil Falso da Política​

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Opinião: O Perfil Falso da Política

Vivemos numa época de informação rápida e frenética. E a velocidade com que esta circula hoje na Internet e redes sociais retirou-lhe escrutínio.

Hoje, na Internet, é muito comum vermos uma imagem com a cara de uma pessoa e uma citação ao lado e imediatamente se leva a acreditar que essa pessoa disse essa mesma frase, sem questionar ou ir atestar a sua veracidade. Existem agora ferramentas que permitem manipular fotografias acrescentando ou retirando pessoas e objetos, e tudo parece muito natural e credível quando, na verdade, foi manipulado. São muitos os exemplos de peditórios na Internet com fotografias de crianças doentes que, na verdade, se revelaram esquemas fraudulentos. Ainda recentemente, vimos um telejornal abrir com uma imagem manipulada da Festa do Avante e nem um grupo de jornalistas experientes foi verificar a sua autenticidade.

A época das redes sociais é assim. E a massificação das redes sociais a todas as camadas etárias veio exponenciar o problema: deixou-se de questionar, verificar ou problematizar o que se lê. 

Os pontos positivos das redes sociais são inquestionáveis: marcas próximas do consumidor, pessoas a reencontrar amigos perdidos, uma comunicação fácil e rápida com quem está longe ou políticos e titulares de cargos públicos muito mais próximos dos seus eleitores.

Mas as redes sociais trouxeram muitos malefícios. Nas redes sociais manipula-se a política, a ciência, o jornalismo. E estas manipulações de informação em contexto político, científico e social não se dão só a nível massificado, como nas eleições para Presidente dos EUA ou no referendo do Brexit, mas também a nível local, nas freguesias, nas juntas ou nas câmaras. Quem quer gerar confusão sem dar a cara, quem quer espalhar desinformação sem assumir que o faz, usa exatamente os mesmos métodos. 

Vivemos numa época em que a facilidade de se esconder atrás de uma página ou um perfil falso permite que qualquer pessoa possa dizer qualquer coisa sem ter de se explicar, sem que os visados se possam defender, simplificando, em meia dúzia frases, coisas complexas que demorariam muito tempo a explicar, desde ideologia a decretos-lei, desde saúde pública a virologia.

E, no campo político, estas manifestações de desinformação podem assemelhar-se a um verdadeiro terrorismo. Não é um terrorismo que mata gente como a ETA ou o Daesh, mas é um terrorismo que distorce, manipula, mente e desinforma. E é isto que estamos a ver cada vez mais na nossa sociedade e, em ano de eleições para Juntas, Câmaras e Assembleias Municipais, estas intervenções vão-se multiplicar, para que alguns possam assim manipular a informação do jeito que querem e sem dar a cara. 

As opiniões ou críticas políticas só são válidas se foram dadas de cara destapada. Porque é dando a cara que assumimos o nosso caráter, assumimos as nossas convicções e interesses e, provavelmente, faremos alguns inimigos. É muito fácil criar um perfil falso chamado Alfredo Costa, Carla Santos ou Daniela Catarina, ou criar uma página de notícias falsas ou mal explicadas, tudo em nome de uma suposta moral ou de zelar pelo bem do Concelho. Assim, pode dizer-se tudo e fugir com o rabo à seringa na hora de assumir responsabilidades. 

Mas quem não dá a cara não quer o bem de ninguém: nem do concelho, nem da freguesia, nem das pessoas. Quem não dá a cara quer o seu bem, os seus objetivos, os seus dividendos políticos pessoais. E depois, é só um pequeno passo até que candidatos políticos, os que até dão cara mas são isentos de qualquer tipo de ética ou moral, comecem a basear a sua campanha nestas páginas falsas, perfis falsos ou informações falsas.

 

Por muita razão que uma crítica possa ter ou muito pertinente que possa ser uma discussão, se são lançadas em nome falso e sem rosto, deixam de ter credibilidade e temos de questionar as motivações de quem as lança. 

Páginas falsas, perfis falsos, cartazes ou panfletos sem nome espalhados pelas freguesias não é política. São uma forma de manipulação do povo e, digamos sem medos, uma cobardia.

Estejamos atentos.

 
Tradutor de profissão, entusiasta da estratégia de comunicação e do marketing digital. Militante social-democrata e liberal que tenta praticar desporto todos os dias. Defensor implacável da causa animal e orgulhoso malapeiro.
Paulo Pinto
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