Opinião: Olá morte, como estás?

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Opinião: Olá morte, como estás?

À nossa maneira vivemos e avançamos dia-a-dia ansiosamente em busca do amanhã. Parece ser este o modo de vida generalizado da maioria das sociedades ocidentais, sobretudo.

Se nascemos e vivemos como parte da natureza, naturalmente também morremos. ” Não temos nada mais certo que a morte e nada mais incerto que a sua hora” Bonucci.

A sociedade conduz-nos para a vivência de uma juventude e uma beleza eterna levando-nos a esquecer a nossa própria finitude. Além disso, a separação da Igreja e do Estado e a perda do espaço da religião nas esferas públicas faz com que o luto seja empobrecido simbolicamente. Não sabemos o que fazer com a morte. Os rituais de morte tendem a ser rápidos e privativos, e poucas pessoas sabem o que dizer diante de alguém que sofre uma perda. A verdade é que falta uma educação para lidar com a morte, uma vez que ela faz parte da vida. Se o Homem é mortal porque tendemos a virar a cara à morte?! A perda e a dor de que dela resultam são fenómenos inevitáveis da vida pelo que urge que a sociedade contrarie a tendência errada de os ignorar e silenciar, só desta forma prepararemos as gerações seguintes de maneira que aumentem as suas capacidades psicológicas e a sua resiliência para encarar a morte e consequentemente a ultrapassar. Caminharemos assim para a humanização.

De acordo com Michel Montaigne o ideal de ser humano é aquele que aprende a morrer, mas vive inteiramente até o seu último instante. Ainda acompanhando a lógica do autor, a aprendizagem sobre a própria finitude dá-se primeiro pela alma, porque é ela que deve dominar o corpo, em seguida pela soberania da liberdade, pela calma e pelo controle emocional, logo, se não há medo em morrer, não há em viver. Sendo assim, conhecer a morte é saber de imediato que ela é universal, irreversível e necessária, ela é imparcial, não atende à lógica da idade, local ou condição. 

Partindo da lógica de que não se comanda o desejo de nascer, e não tememos esse mesmo nascimento, não devemos temer a morte.

Aprender a morrer, depende da observação do contexto histórico, social e cultural de cada indivíduo. É o saber-se mortal que glorifica a vida, o seu significado, e a necessidade de ser parte de um ciclo natural universal. Sendo assim, não temer a morte é não temer a vida.

Ainda segundo a perspetiva de Michel Montaigne  “conhecer a morte é saber de imediato que ela é universal, irreversível e necessária. Ela é imparcial, não atende à lógica da idade, local ou condição. É imprevisível e está sempre em vantagem. Aos não avisados, ela “humilha, transtorna e confunde”. O medo da morte causa desprazer e coloca-nos num estado desconfortável de inquietação e ansiedade impedindo-nos de viver a vida com intensidade e satisfação por isso “ter domínio sobre a morte é ter vantagem sobre ela”.

Tomar a morte como algo comum, não estranhá-la, pensar nas manifestações da morte e de como acontecem, refletir, manter-se calmo e, acima de tudo, lembrarmo-nos da nossa condição humana de que somos seres mortais poderá ajudar a alcançar a libertação do medo e consequentemente a liberdade para a vida. Será este o caminho para que a morte comece a ser parte da vida?! Será que afastar o tema nos traz assim tanta mais felicidade?! Não será mais prazeroso se tivermos consciência de finitude?! 

Na cultura ocidental morte representa comummente deceção, choro, tristeza e raiva, contudo será assim em todas as culturas? Não! 

Será por uma consciência ativa sobre o tema da morte que determinados povos reagem de forma distinta da nossa? Será pela presença constante de que a morte é uma realidade que quando o fim chega é interpretado como o fechar de um ciclo prazeroso que consequentemente “pede” uma festa à altura do falecido?!

A sociedade africana apresenta uma particularidade pouco vista no mundo ocidental. As suas religiões e cultos são muito integradas à natureza, por isso, a pedagogia da morte é permanente e presente desde a infância. A morte é, assim, aceite naturalmente, porque há integração com a natureza. É o fim necessário ao circuito vital.

Na ilha africana de Madagáscar, os corpos são exumados por parentes dos mortos como forma de demonstrar amor e respeito pelos antepassados e transformar a dor da perda em alegria.

O ritual Famadihana (algo como “Viragem dos ossos”) é comemorado a cada cinco anos e funciona como uma espécie de reunião de família entre os vivos e os mortos.

Pode parecer assustador, mas o objetivo é dançar com os mortos cujos restos são enrolados em lençóis num ritual acompanhado de músicas tradicionais do país.

A tradição existe há séculos e a ideia de se reunir com os corpos dos mortos é uma forma de compreender a finitude humana e de lidar com o luto.

No Gana celebram-se os mortos com música e cor. A tradição implica homens que carregam os caixões, os ‘pallbearers’, enquanto dançam, acreditando-se que esta é a melhor forma de homenagear um ente querido. 

Os rituais funerários extravagantes são populares no país e costumam realizar-se aos sábados e o tempo entre a morte e o funeral pode variar bastante, dependendo de quão longe os enlutados viajam para estar presente. A cerimónia conta com comida, bebida, música, canto e dança cujo objetivo é que os enlutados se divirtam. O luto é considerado um processo cognitivo que implica a confrontação da pessoa com a sua perda, e que lide com os acontecimentos anteriores à perda e até à altura da mesma. 

O funeral permite que toda a comunidade tenha conhecimento da perda e possa de certa maneira não só despedir-se do morto como também expressar emoções de medo e raiva. 

Muitas vezes os progenitores evitam a sua presença, no entanto, isso não impedirá que elas não se apercebam do que se está a passar e não procurem uma explicação para tal. Assim, caso a criança deseje participar no funeral, é conveniente que o faça, pois é uma forma de integrar essa experiencia ao observar a condolência dos outros.

A forma como vivemos o fim é fundamental no processo de luto, que por si só representa uma fase muito pessoal e que pode atravessar várias fases. De acordo com a psicologia estas fases podem assumir cinco estádios de luto: o choque/negação; a raiva; a depressão e por último a aceitação. Não ultrapassarão os indivíduos estes estádios de forma menos penosa se a  consciência sobre o tema morte for algo presente e previamente “trabalhado”?!

Tudo aponta para que sim. O caminho da humanização sugere uma consciencialização gradual em busca da ética e da moral distanciando-se da ignorância e do desamor.

Falar sobre algo que nos pertence por mais delicado que seja e saber mais sobre o tema, creio ser o caminho para uma noção clara e objetiva de finitude e consequente máxima valorização da vida. 

O caminho pode começar por cada um de nós, dando corpo à pedagogia da morte. Esta abordagem pedagógica pode e deve começar nas crianças, tal como sugere Sara Silva no seu livro “Onde está a minha mãe”. O tema pode e deve ser abordado de uma forma verdadeira e honesta e o mais simples possível. Morreu porque estava doente, porque teve um acidente (sem pormenores!), porque estava velhinho, etc. E quando se morre parece que se adormece, mas nunca mais se vai acordar. Deixa-se de respirar. Ponto. Não invente histórias de pessoas que passam a ser estrelas, anjos, e/ou que viajou. Deixe a criança  organizar a informação que lhe fizer sentido.

Não faz mal nenhum se a mãe, o pai ou a própria criança chorarem. Todos gostavam muito da pessoa em questão e é normal que fiquem tristes. Também é normal que outras pessoas da família ou amigos próximos estejam mais tristes agora. E que se lhe apetecer chorar, é importante que saiba que pode fazê-lo, sem recriminações nem “não chores”.

Se a morte mora ao lado porque não a saudarmos?

Olá morte, como estás?!

Natural de Santa Maria de Lamas, Licenciado e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pela Univ. Lusófona de Lisboa. Gestor, escritor, formador e desportista. Apaixonado pela sua terra e com orgulho na sua identidade é voz ativa na comunidade local.

Manuel Pinto
Gestor
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