Opinião: Um mundo de animais

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Opinião: Um mundo de animais

Caro(a) Leitor(a)

Não sei se já se terá apercebido, mas em pouco menos de uma década assistiu-se a uma alteração substancial na forma como vemos os animais. Talvez a mais evidente transformação evidenciou-se na Lei, ao se considerarem os animais “seres vivos dotados de sensibilidade” ao invés de simples “coisas”.

Esta evolução legislativa acompanhou a modificação comportamental e relacional de Humanos para Animais. Em boa verdade, tratou-se de uma mudança histórica e ajustada à verdadeira natureza das coisas, isto porque um animal, objectivamente, não é uma coisa. 

Entenda, caro(a) Leitor(a): uma mesa, uma cadeira, um carro, uma janela, uma casa, um lápis, e tantos mais objectos quantos quisermos imaginar, são realmente “coisas”, pelo que podemos fazer com eles o que bem nos apetecer, inclusive destruir. Ora, se um animal fosse uma “coisa”, como sucedia no passado, portanto equiparado a todo e qualquer objeto mencionado anteriormente, poderíamos espancá-lo por simples diversão e nada nos aconteceria.

Esta foi, como tal, uma transformação positiva e coerente. Quer isto dizer que os animais estão, agora, felizes da vida?

Desculpem informar, mas não. A nossa tendência para fazer de nós próprios a medida de todas as coisas (antropocentrismo), costuma traduzir-se num enorme erro de perceção. Convencidos que estamos da nossa “bondade”, vestimos os animais com calças e coletes, colocamos totós, falamos para eles, andam ao colo, castrámo-los, cortamos os rabos, cortamos as unhas, vão ao cabeleireiro e, no fim de tudo isto, ainda dizemos que são muito “espertos”. 

Na realidade, os animais, sobretudo os de companhia, tornaram-se verdadeiros acessórios dos seus donos (sim, nós somos os donos deles) e inquestionáveis objectos manipulados de acordo com as nossas taras e manias.

Caro(a) Leitor(a), o seu animal de companhia não está feliz consigo, nem triste. O seu animal não é bom, nem mau; também não quer saber de si para nada, porque o que ele criou foi uma dependência (dono = comida). O seu animal tem emoções associadas à dor e ao prazer, mas não têm sentimentos. Sentimento é coisa de Humanos. E o seu cão e o seu gato são…animais! Não lhe dê comida durante 8 horas, após isso prepare-lhe um bom pitéu, coloque-o junto dele, sente-se a uma certa distância e, só depois, chame-o até si; irá surpreender-se com o enorme amor que ele tem…ao pitéu. Caro(a) Leitor(a), querer projectar nos animais aquilo que nós somos é uma evidente manifestação de delírio.

Relativamente ao nosso “amor” por eles, a coisa também tem muito que se lhe diga. Veja-se o “amor” que temos aos vitelos, cabritos, galinhas, coelhos, patos e por aí adiante, sobretudo quando estão nos nossos pratos. Não, nós não temos “Amor” aos bichos; não se conspurque as palavras. Nós temos afeição; tal como teríamos caso criássemos uma galinha, um porco ou um jacaré dentro de casa. É exactamente por isto que comemos peixe, mas não comemos o peixe do nosso aquário.

O nosso “amor” aos bichos é tão grande que nunca nos chegamos a questionar se ter o animal fechado dentro de casa, numa gaiola ou num aquário, se traduz no maior e inimaginável ataque que poderíamos fazer a um ser selvagem: privá-lo da sua liberdade.

Sim, nós somos os responsáveis por privar os animais da sua liberdade natural, apenas por mero capricho. Para estarem ali, para nós, à disposição das nossas projecções, taras e manias. Pelo menos, os nossos avós, criavam e matavam, para suprir uma necessidade primária; hoje, atrevo-me a dizer, priva-se o animal do seu lugar próprio (a natureza) para nossa satisfação.

Pensemos nisto…

Daniel Tavares Gomes, 32 anos, licenciado em Economia, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais e Pós-Graduado em Economia Social. Autor da obra "Perfectível - O Ser Humano e a Economia", membro da Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia de Santa Maria de Lamas, pelo Partido Socialista. Técnico de Controlo de Gestão do Grupo Solverde, Formador e Microprodutor de Energia Fotovoltaica
Daniel Gomes
Técnico de Controlo de Gestão do Grupo Solverde