Opinião: O Segredo da Feira

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Opinião: O Segredo da Feira

Recai sobre a esmagadora maioria dos Homens a fatal cortina do tempo. Sobre essa massa colossal de seres compartilhando aquilo a que vulgarmente designamos por época, ininterruptamente corre uma lâmina lapidando linearmente cada momento. Soçobram simples sombras do que outrora era mas já não é mais, vagando pelo espaço (chamemos-lhe espaço) aquela névoa condensada dos arquétipos passados, à espera de que nós, humanos, desesperadamente humanos, sintonizemos os nossos pensamentos e assim possamos beber dessa fonte eternamente abastecida.

A memória e o intelecto podem trabalhar em conjunto para almejar a aproximação aos ditos factos históricos, no entanto de que nos vale estas poderosas ferramentas da mente se, da mesma mente, fervilham as instintivas tentativas de cada um colocar o seu cunho na história (ou será estória?), seja em prol de si ou dos seus, do manto de terra em que nasceu ou viveu, ou da doutrina que criou ou defendeu? Sim, porque a história (fiquemo-nos em história!) não se resume a marcos; aliás, os marcos pouco nos dizem. O que sempre procuramos recriar foram os eventos, as relações, os atos, os feitos…e daí retirar valor e ensinamento, quiçá inspiração.

Por mais zelosos que sejamos na nossa busca, o tal humano, demasiado humano, sempre estará presente, por isso nunca será de espantar a tendência para a efabulação. Desejamos ardentemente dar sentido às nossas vidas, nem que para isso tínhamos de recorrer ao que vai ficando para lá da imparável lâmina. Procuramos sustento em raízes mitológicas, em feitos heróicos, em deuses comparsas, enfim, em algo que nos transporte para um reino imaterial pejado de angústia, medo e dúvidas que o presente e futuro sempre propiciar-nos-ão. Por isso, sejamos francos, isto é, digamos toda a verdade e não apenas a verdade naquilo que dizemos; Guimarães não é o berço de Portugal, mas a franqueza impõe a referência de que berço algum poderá alguma vez ter existido!

O horror ao vazio encarrega-se de impulsionar a mente para projeções verosímeis entre atores e momentos históricos, consubstanciando dessa forma a “realidade” e a “verdade”. E que vazio terrível é desconhecer o início do que quer que seja…

 

Quero-vos contar uma outra estória para que a história fique mais completa e se faça Justiça à Terra de Santa Maria, tal como o procurou fazer Vaz Ferreira. Para isso é necessário destrinçar, antes de mais, pomposidade de relevância. A noção de relevância (importância) remete-nos para o peso de um dado fenómeno ou acontecimento na conquista de um determinado objetivo, enquanto a pomposidade se alia ao destaque nos anais históricos desse fenómeno ou acontecimento. Quer isto dizer que poderemos ter acontecimentos relevantes que nunca chegaram a ser dignos de pompa, e o que se passou na Feira foi um acontecimento extraordinariamente relevante que nunca chegou a ser devidamente evidenciado.

 

Caro(a) Leitor(a), estou em crer que não será necessário elucubrar demasiado para demonstrar que entre o seu penúltimo aniversário e o último ocorreram múltiplas interacções entre si e o mundo, no entanto terá de realizar esforço para se recordar especificamente de um determinado dia, um determinado episódio ou de uma determinada conversa. Se tivesse de realizar um diário, à posteriori, daquilo que aconteceu no período que mediou aqueles trezentos e sessenta e cinco dias, por certo elencaria meia dúzia de ocorrências e pouco mais. Se tivéssemos de alargar o domínio temporal desta retrospectiva aos últimos trinta anos da nossa vida, a tendência para a análise discreta acalorar-se-ia a “olhos vistos”; apontaríamos o nosso nascimento (se fosse caso disso), eventualmente identificaríamos o primeiro momento em que andamos de bicicleta ou brincamos com um determinado objecto, retrataríamos a data do primeiro dia de aulas na primária e no ciclo, e assim por diante. Decorrente desta retrospectiva pessoal ficaria absolutamente claro que a simples menção a episódios da sua vida traduzir-se-ia numa recta temporal com pontos dispersos e completamente independentes entre si, manifestando uma perspectiva resumida a muitas partidas e chegadas, olvidando completamente as montanhas e os vales calcorreados até chegar ao destino, aqui designado por marco. Mais importante, aquilo que descartaria da retrospectiva temporal seria precisamente o que explicaria a “chegada” a uma conquista pessoal ou uma efeméride digna de destaque. Qualquer ouvinte do seu percurso histórico compreenderia certas decisões, conjecturaria sobre outras e não faria a mínima ideia relativamente a outras tantas, porque desconheceria muito daquilo que fez, de onde veio, quem o criou, onde cresceu, que amigos teve, e vai-se lá saber quantas mais informações necessitaria para estabelecer minimamente as pontes entre os momentos seguintes. Como tal, não subsiste razão de ordem alguma para que no mundo em que nos movemos, em que os relógios cumprem o mesmo destino das águas sobre os rios, seja dispensável uma visão acurada do caminho, até porque se aumentarmos o zoom sobre a linha do tempo, o mais certo é que nos surpreendamos com aspetos, à época, negligenciados mas absolutamente determinantes para o devir.

 

Aqui chegado, o(a) Leitor(a) compreenderá melhor a pertinência da minha estória. Pense comigo:

    • Como pode ser Guimarães o berço de Portugal, se Afonso Henriques avança CONTRA Guimarães para derrotar o poder Galego aí instalada e corporizado pelos Trava e sua mãe?

    • Se Afonso Henriques avança com um grupo revoltoso CONTRA Guimarães, significa que tinha uma base de apoio para o fazer, ou seja, um grupo de pessoas que planearam e executaram a revolta, isto é, a FORMULAÇÃO (Ideia) de Portugal

    • Os revoltosos estavam perfeitamente identificados, pois nas Crónicas da Época são dois os Castelos que mais “guerra” faziam ao poder Galego: Neiva e FEIRA

    • O movimento revoltoso para ter sucesso tinha de se processar e engendrar de sul para norte, estando tanto mais distante da influência galega quanto possível

    • Ermígio Moniz era o Senhor das Terras de Santa Maria e do seu Castelo, para além de ser irmão de Egas Moniz, o Aio de Afonso Henriques e mais que provável influenciador, via educação, para a criação de um Reino Independente no extremo ocidental da Ibéria

    • Vários são os escritos que nos evidenciam Ermígio Moniz como verdadeiro Aio de Afonso Henriques, dada a relevância que este veio a ter na corte de Afonso Henriques como o primeiro Dapifer Curie (Mordomo Mor) sendo sucedido apenas à posterior pelo seu irmão Egas Moniz; seja como Aio ou como estratega principal da revolta, Ermígio Moniz é essencial nesta estória

    • A importância dos Ribadouro (família Moniz) é evidente, sobretudo após o milagre da recuperação do, ainda menino, Afonso em Santa Maria de Cárquere; o dito “milagre” poderá ser explicado com uma troca de meninos (o aleijado Afonso original por um “Afonso” dos Moniz), o que explicaria abundantemente o tremendo empenho dos Moniz diante do “Afonso” e do futuro Portugal

 

Caro(a) Leitor(a), na senda de Vaz Ferreira, eu deixo também o meu cunho: a ideia de Portugal enquanto Reino independente no extremo ocidente da Ibéria surge no Castelo da Feira, engendrado pelo membro mais influente dos Moniz, o Senhor das Terras de Santa Maria e seu Castelo, Ermígio.

O segredo superficial da Feira é, pois, este. Portugal enquanto nação independente foi pensado cá, entre o Douro e Vouga, pelo que a nascer teria sido cá e não na refrega da batalha. Ouviu bem: o segredo superficial!

Há outro, bem mais profundo, que merecerá uma exposição posterior. Sejamos dignos de o conhecer.

Daniel Tavares Gomes, 32 anos, licenciado em Economia, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais e Pós-Graduado em Economia Social. Autor da obra "Perfectível - O Ser Humano e a Economia", membro da Assembleia Municipal e Assembleia de Freguesia de Santa Maria de Lamas, pelo Partido Socialista. Técnico de Controlo de Gestão do Grupo Solverde, Formador e Microprodutor de Energia Fotovoltaica
Daniel Gomes
Técnico de Controlo de Gestão do Grupo Solverde