Opinião: Portugal, o eterno pedinte ​

Opinião: Portugal, o eterno pedinte

Existe no panorama nacional mais uma indignação coletiva, incitada pelo governo, pelos comentadores e colunistas de toda a parte. Em resultado da crise provocada pelo coronavírus, temos sido levados a acreditar que existe um conjunto de países malfeitores dentro da União Europeia, que não querem “emprestar” dinheiro a fundo perdido a Portugal, ou que não querem “qualquer tipo de mutualização de dívida”. Até ver, esses países são os Países Baixos, a Áustria, a Suécia e a Dinamarca.

Em Portugal, após estes desenvolvimentos, muitos com responsabilidade colocaram imediatamente em causa a viabilidade e o futuro do projeto europeu. Como se o projeto europeu existisse com a finalidade de dar dinheiro a Portugal. No fundo dizem, “se não dão dinheiro a Portugal, a União Europeia serve para quê?”. Isto pode parecer chocante para alguns, mas eu tenho uma novidade para vos dar. A União Europeia não nasceu para dar dinheiro a Portugal. 

Após duas guerras apocalípticas, emergiu a necessidade de criar uma assembleia de povos entre alguns países da Europa, com uma representatividade bem mais abrangente. Galvanizados por um discurso de Churchill, em Zurique no ano de 1946, e por um congresso europeu de Haia, em maio de 1948, foram criadas as condições para criar o Conselho da Europa que contemplava, na sua orgânica, uma Assembleia Consultiva (hoje dita Parlamentar). Era o princípio da união dos povos da Europa em diferentes organizações internacionais. Uma delas viria a culminar na União Europeia, tal como a conhecemos hoje, que foi aprimorada e aprofundada com o tempo. O projeto europeu que culminou na União Europeia, nasce primordialmente para garantir a paz perpétua, objetivo que tem conseguido com retumbante sucesso, e facilitar a circulação de bens, serviços e pessoas, até atingir o livre comércio, com o propósito final de prosperidade. 

Por algum motivo difícil de entender, as forças políticas (principalmente mais à esquerda) consideram que a União Europeia existe para dar dinheiro a Portugal. O rendimento médio de um holandês é superior ao de um português. Mas o rendimento médio de um português é muito superior ao rendimento médio de um angolano ou moçambicano. Vamos criar uma mutualização de dívida para dar dinheiro aos países da CPLP? Vocês aceitam pagar (ainda mais) impostos para doar dinheiro aos países de língua portuguesa? Admitem viver um pouco pior, para eles viverem um pouco melhor? Duvido muito. 

Quando Portugal teve de ajudar a Região Autónoma da Madeira, após anos de regabofe de Alberto João Jardim, cobrou essencialmente o mesmo juro que a troika cobrou a Portugal. Reparem, Portugal emprestou dinheiro a uma parte do seu próprio território e ao seu próprio povo, ao mesmo juro que os estrangeiros que não tem nada que ver connosco nos emprestaram a nós. E não vi ninguém a reclamar para que Portugal emprestasse dinheiro mais barato à Região Autónoma da Madeira (com exceção dos madeirenses), antes pelo contrário. Mas vi muitos portugueses a reclamar dos juros da troika. Como se o mundo lá fora nos devesse alguma coisa e fosse obrigado a pagar os nossos pavilhões, estádios de futebol e diversas obras públicas de utilidade discutível.

O facto da União Europeia continuar a enterrar aqui dinheiro significa a perpetuação da miséria portuguesa. Porque isto quer dizer que eles continuam a votar bem e nós continuamos a votar mal. Isto quer dizer que eles continuam a ser mais ricos que nós (e cada vez mais) e nós continuamos em coma induzido e a votar em partidos que nunca trouxeram prosperidade a Portugal. Isto significa que na Holanda vai-se continuar a votar no partido liberal holandês (Partido Popular para a Liberdade e Democracia), mas aqui em Portugal vamos continuar a votar no Partido Socialista ou nos partidos de extrema-esquerda que não existem em praticamente nenhum país, dos mais ricos do mundo. E isto traduz-se em continuarmos de mão estendida perante os holandeses e os outros. 

É surpreendente como os portugueses depois de verem o seu país ser ultrapassado por Malta, pela República Checa, pela Estónia, pela Eslováquia, pela Eslovénia (entre outros) e brevemente pela Polónia, continuam a apostar nos mesmos. Uma vez pedintes, para sempre pedintes?


Licenciado em enfermagem, enfermeiro no Hospital São João no Porto.

Enfermeiro formador em diversas instituições.

Cristiano Santos | Iniciativa Liberal
Enfermeiro