Argoncilhe: De lágrimas nos olhos e sorriso tapado ofereceram mais de mil refeições

Argoncilhe: De lágrimas nos olhos e sorriso tapado ofereceram mais de mil refeições

Em Argoncilhe um grupo de 20 pessoas deu o passo em frente para ajudar os outros

▌A última viagem destas refeições começa com um briefing no restaurante Progresso em Argoncilhe

Alberto Brito viu a fluidez do seu negócio de restauração ameaçada pelas restrições do Covid-19, mas em vez de se concentrar na sua má sorte, ofereceu mais de mil refeições a quem mais precisa e deu assim o mote para o movimento social SOS Argoncilhe nascer

Argoncilhe, 31 de maio –  Debaixo de um sol ameno, numa esplanada em Argoncilhe,  o cheirinho de tripas à moda do Porto é convidativo. Num banco de jardim, ali próximo, é improvisada uma mesa de reuniões onde um pequeno grupo de pessoas ultima os preparativos para aquela que seria a última entrega de refeições prontas aos mais desfavorecidos da freguesia.

Das dificuldades pessoais à empatia

 

Em março deste ano o mundo mudou: o Covid-19 começou a fazer parte das nossas vidas e com ele as restrições inerentes, estas atingiram de forma especialmente dura o setor alimentar.

No Restaurante Progresso, em Argoncilhe, Santa Maria da Feira, Aberto Brito viu-se a braços com uma diminuição dramática nos seus clientes –  no entanto, este ‘chef’ de 55 anos decidiu transformar uma situação económica adversa num exemplo social.

Alberto Brito estava habituado a uma roda-viva no seu restaurante e quando as restrições da DGS foram impostas não teve dúvidas: “tinha de ajudar”, até porque, segundo ele, esta atitude funcionou como uma terapia, “um escape” que serviu também para aproveitar da melhor maneira os alimentos que tinha armazenado.

Enquanto falava o empresário de 55 anos não conseguia esconder a emoção; de lágrimas nos olhos frisou que “temos que nos lembrar que há muita gente a passar necessidades”.

Numa fase inicial do projeto o empresário chegou ele mesmo a entregar alimentos porta a porta e viu “coisas que realmente são muito catastróficas”.

‘Beto’, como lhe chamam carinhosamente os outros voluntários, explicou que a empatia que sente, vem do seu passado: “já estive do outro lado” – diz com voz trémula – e é por isso “que sei dar valor ao que se passa com as outras pessoas”.

Realça, no entanto, que embora esta pandemia “seja uma situação triste que aconteceu”, para o empresário ela “trouxe o melhor que há em muitas pessoas”.

Quanto aos encargos que teve com as mais de mil refeições que ofereceu foi categórico: “não são contas para se fazer” e rapidamente desviou as atenções para os ‘colegas’ de missão, realçando a entrega e o trabalho dos voluntários e da junta de freguesia: “no restaurante fizemos a nossa parte, mas foram eles que andaram na rua”.

O SOS Argoncilhe

Manuel Santos, presidente da junta de Argoncilhe recorda que o empresário se dirigiu ao executivo dizendo que “no seu restaurante o fogão era a lenha e por isso era tão igual fazer comida para duas ou três pessoas como para vinte ou trinta”; pelo que mostrou disponibilidade para “oferecer as refeições”, o presidente fez questão de classificar a postura de Alberto Brito como uma “ajuda preciosa”.

O passo seguinte era angariar voluntários para a linha da frente: com um simples ‘post‘ no Facebook o SOS Argoncilhe viu dezenas de voluntários a aderir às suas fileiras e Manuel Santos recorda que na altura se “sentiu comovido” com a disponibilidade que veio dos Argoncilhenses.

Organizados “os pormenores” entre junta, voluntários e restaurante era hora de detetar os casos mais necessitados da freguesia – em pouco tempo foram sinalizados e contactados os casos mais urgentes.

O presidente da junta “não tem dúvidas que para além das refeições, as pessoas sentiram o carinho” –  explica ainda que esse calor humano era palpável na altura das entregas: “nós não esperávamos pelas pessoas, quando chegávamos elas já estavam à nossa espera”.

Os Voluntários

 

Marta Oliveira de 42 anos é uma veterana do voluntariado – já o fez “em várias vertentes” e está habituada a ajudar várias instituições ligadas à paróquia.

 

No entanto, mesmo com a sua experiência de voluntariado Marta lembra que não é imune ao sofrimento do próximo: “sempre que tenho situações com idosos ou crianças, mexe comigo – é impossível não mexer”.

Marta espera que o projeto continue, “mas gostava que mais pessoas ajudassem” porque “em Argoncilhe não existe só um restaurante e uma padaria”, enfatiza.

A voluntária termina a dizer que o que faz, faz pelos seus filhos: “quero-lhes dar o exemplo” do que é viver em comunidade.

Diogo Guimarães é outro dos voluntários e aos 25 anos não é a primeira vez que oferece o seu tempo e dedicação a Argoncilhe: “achei que devia fazer parte”, diz o jovem ao assumir que o impulso que teve para se voluntariar veio do amor que tem pela freguesia e de querer “ajudar o próximo”.

Para o jovem oferecer a ajuda não veio sem um abalo emocional: “numa fase inicial do Covid houve um pequeno choque”, diz Diogo ao lembrar que tem noção de que existem pessoas com muitas dificuldades, mas explica que quando enfrentou a realidade descobriu “uma situação que custa muito ver”.

Quando questionado se considera que é um exemplo para a sua comunidade, Diogo responde que “todos devemos olhar para os outros e retirar deles o melhor”, mas ressalva que não quer que as pessoas pensem que está “a fazer isto por protagonismo”.

Com o fim das entregas de refeições prontas, Diogo pensa que seria uma “boa ideia continuar a entregar alguns produtos alimentares” às pessoas que já usufruem da ajuda deste projeto.

A janela de Belmiro

Uma das pessoas apoiadas por este projeto falou com o Diário da Feira, mas por se preferir manter anónimo será respeitada a sua privacidade e mencionado como “Belmiro”.

Dois voluntários Marta e Coimbra calcorreiam uma travessa na periferia de Argoncilhe; ao longe, o som de música popular vai enchendo o ambiente – vem de uma pequena vivenda – no pátio, sentado confortavelmente numa cadeira, está o Sr. Belmiro que recupera de uma fratura na perna.  

A perna partida trouxe-lhe outra surpresa – em virtude da estadia no hospital, causada por este acidente, Belmiro contraiu Covid-19.

Como vive sozinho a intervenção destes voluntários foi vital: até se curar do vírus as refeições eram colocadas fora de casa junto ao portão e da sua janela o Sr. Belmiro lá ia agradecendo aos beneméritos.

Ultrapassada a infeção por Covid e o isolamento obrigatório os voluntários passaram a poder entrar na vivenda onde, além da habitual refeição diária, deixavam sempre dois dedos de conversa e quebravam a solidão ao Sr. Belmiro.

Belmiro é um homem de poucas palavras, mas deixou um agradecimento: “se não fossem eles teria de recorrer à minha família”, por isso fez questão de acrescentar que se sente “melhor assim” e termina com um elogio: “estão a fazer um trabalho muito bom”.

O SOS Argoncilhe termina hoje o serviço de entrega de refeições prontas, no entanto, o projeto deverá continuar e para isso na próxima terça-feira será realizada uma reunião nesse sentido – todavia a experiência, as histórias e a cumplicidade que ficará para sempre na memória dos intervenientes.

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