O mosteiro que deu nome à Vila de Canedo

O mosteiro que deu nome à Vila de Canedo

 

No seguimento das restantes crónicas sobre a freguesia de Canedo, não podia deixar de falar do Mosteiro de São Pedro de Canedo, que para além de ter dado o nome à Vila, realça a origem pré-nacional desta localidade e a sua relevância nas Terras de Santa Maria.

Antes de passar ao cerne do assunto, convém explicar como surgiram os mosteiros no nosso território. A chamada “Reconquista”, que consistiu em expulsar os mouros da Península Ibérica, propiciou a construção de mosteiros nas zonas recém-conquistadas e nota-se que após Affonso Magno ter libertado algumas regiões a sul do Rio Douro, se começaram a construir vários mosteiros na sua margem esquerda. Provavelmente um deles terá sido o Mosteiro de Mosteirô, lugar de Canedo, na altura pertencente à freguesia de Várzea do Carvoeiro, que no ano de 980 foi destruído pelo Rei mouro Almançor.

Porém, também um dos mosteiros a ser fundado nessa altura foi o Mosteiro de São Pedro de Canedo. Atribui-se a sua fundação a D. Telles Guterres pelos anos de 950, seria masculino e pertenceria à ordem de S. Bento. Vem pela primeira vez mencionado num documento do ano de 1050 e era seu superior um abade de nome  Todemondus.

Desse ano até ao século XII, não se sabe muito mais.

No século XIII, os mais importantes mosteiros sediados nas Terras de Santa Maria possuíam cerca de 530 casais: o Mosteiro de Grijó mais de metade (54%), o Mosteiro de Pedroso (20%), o de Vila Cova das Donas, Sandim (12%), Canedo e Cucujães (ambos com 7%) o que equivale a cerca de 36 casais.

Embora o Mosteiro de Canedo estivesse sediado na freguesia, outros Mosteiros detinham algumas propriedades. No século XII, o Mosteiro de S. Pedro de Pedroso detinha alguns casais da freguesia de Canedo, entre 1 e 9 casais.

A par, o Mosteiro de Canedo sempre teve casais que pagavam o foro. No ano de 1302 possuía cerca de 70 casais, sendo que só 25 pagavam. No século XII e XIII, possuía casais espalhados por algumas freguesias do Concelho de Santa Maria da Feira: Lobão; Vila Maior e Louredo.

Para além dos casais que pagavam o foro, o Mosteiro tinha a si anexado, de onde recebia dividendos, três igrejas paroquiais: a Igreja do Mosteiro de Canedo, que era paroquial; a Igreja de São Tiago de Lobão e a Igreja de São Vicente de Louredo.

No ano de 1293, sabe-se de uma carte escrita por D. Dinis ao Tabelião da Feira a uns notificar uns cavaleiros, donas, escudeiros e outros homens para se absterem de ir pousar e comer no Mosteiro, fazendo grande mal ao mesmo, quer isto dizer que eram tamanhos os abusos já naquele tempo, levando pouco a pouco a entidade religiosa à ruína. No ano de 1296 vir-se-ia a comprovar o tal facto e deparamo-nos com um protesto que o então abade do Mosteiro  Martim Domingues fez perante os Vigários do Bispo na inquirição que estes iam fazer a respeito dos sinos do Mosteiro estarem postos num castanheiro.

           Posto isto, o mesmo abade ficou proibido de administrar os bens do mosteiro e para sua gestão foi nomeado um ecónomo. De realçar que este abade Martim Domingues conciliava a sua vida religiosa com uma vida excessiva, pois tinha seis concubinas. Sabendo de tal facto, o então Bispo do Porto mando-o fazer penitência para o Mosteiro de Paço de Sousa.

De certo modo, o acontecimento mais marcante do Mosteiro de São Pedro de Canedo aconteceu em 28 de Março de 1304, quando D. Dinis em mútuo acordo com a sua esposa D. Isabel e seu filho Infante D. Afonso doou o dito mosteiro ao então Bispo do Porto D. Geraldo com o direito de padroado e todas as honras, senhorios, dias (pensões), casais, heranças e posses com todos os direitos espirituais existentes e futuros.

A mesmo doação foi era pessoal a D. Geraldo em atenção aos muitos serviços prestados a D. Dinis e uma das cláusulas da doação era que para sempre houvesse no Mosteiro uma missa diária e cantada em honra de Deus e da Virgem Santa Maria por alma dos ascendentes e descendentes do doador, neste caso do Rei, abençoando os que auxiliassem o cumprimento da doação e amaldiçoando os que a impedissem.

Vê-se que foi uma doação marcada por uma grande solenidade, pois o documento de D. Dinis tem a data em Lisboa e foi assinado por magnates seculares como D. Martinho, arcebispo de Braga, D. João, Bispo de Lisboa, D. Estêvão de Coimbra, D. Fernando de Évora e por outras personalidades religiosas de grande importância na altura.

No ano de 1312, depois de ter sido anexado ao Deado do Cabido do Porto, o mosteiro passou para a posse de D. Gonçalo Pereira, avô do condestável D. Nuno Álvares Pereira, que também nessa data tomava posse no Deado, o manteve em sua possessão até ao ano de 1322. Nota-se que esta figura venerável foi Bispo de Évora, Lisboa, Arcebispo de Braga e também Prior da Igreja de São Nicolau da Feira.

Após várias renuncias da posse do Mosteiro por parte do Cabido devido aos seus problemas graves, foi anexado no ano de 1474 à Igreja de Lobão e assim à Comenda de Lobão.

O seu estado era decadente e a última referência data do ano de 1623 escrito por D. Rodrigo da Cunha (então Bispo do Porto), depois de uma visitação a Canedo no dia 28 de junho de 1621: “Então (refere-se a 1304) dos religiosos da Ordem de S. Bento e agora é Comenda da Ordem de Cristo.” Contudo, supõe-se que tenha sido extinto por volta do século XVI e vendido com a sua cerca, por algum rei da Dinastia Filipina, devido à urgência de estado (afirmam alguns historiadores).

Para concluir a ideia da extinção do mosteiro de  São Pedro de Canedo, é de notar que um dos grandes males que mais concorreu para o empobrecimento dos mosteiros e igrejas foi o direito que tinham os padroeiros de visitar instituições que dependiam destes. Aproveitavam-se desse direito, visitavam, instalavam-se, demoravam-se e faziam grandes despesas que eram pagas pelos mosteiros e igrejas, não restando meios suficientes para o clero e pessoas encarregadas dos diferentes serviços. A Santa Sé bem empregou meios para combater os abusos e os reis de Portugal fizeram o mesmo, mas os resultados não foram muito promissores.

Contudo, ainda se fala numa “Casa do Mosteiro” que terá sido construída no local do Mosteiro por volta do ano de 1620 (inscrição encontrada numa padieira), preservando o nome e em tempos antigos a sua grande cerca.

Natural de Canedo, estudante de Administração Pública na Universidade de Aveiro.
Estudante, Escritor e Agente Associativo Estudantil e Local.
Emanuel Alexis
Estudante Universitário
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