Opinião: Ciganos

Todos os artigos de Opinião são da responsabilidade dos autores e não refletem a linha editorial do Diário da Feira

Opinião: Ciganos  

Actualmente muito se fala dos ciganos e da posição nas sociedades, sobretudo em Portugal. Na pessoa de André Ventura a perseguição aos ciganos volta a ganhar combustível.

Será assim tão linear esta perseguição e este apontar de dedo aos ciganos?

Os Ciganos estão em Portugal há cerca de 500 anos, provenientes do Nordeste da Índia, tendo iniciado os seus movimentos migratórios por volta do séc. III. Nestas longas caminhadas atravessaram inúmeros países, onde muitos grupos foram criando raízes, enquanto outros continuaram ininterruptamente as suas viagens. 

Estas passagens por regiões tão diversas, bem como as suas fixações, trouxeram forçosamente influências e processos de aculturação por exemplo os linguísticos, proporcionando assim a formação de vários grupos que, sendo diferentes entre si, têm raízes comuns. Este facto faz do povo cigano um conjunto heterogéneo, dentro das suas semelhanças.

A sua aura de mistério atraía tanto, quanto afastava. E durante muito tempo esse afastamento foi real. O desconhecido é algo que não estamos habituados a lidar e como tal separamo-nos para analisar, avaliar, julgar e só depois integrar A perseguição durou séculos, foi uma realidade. Foram submetidos a leis repressivas que legitimaram castigos severos, nem sempre proporcionais aos delitos cometidos.

Criaram-se relações que não se pautaram nem pela confiança, nem pelo apreço. A discriminação e marginalização de que cedo foram alvo, obrigaram a um grande isolamento.

Ergueram muros à sua volta que lhes permitiu conservar a sua identidade e cultura, no entanto por outro lado remeteu-os ao esquecimento, à desconfiança de uma outra sociedade, maioritária, e à sua própria exclusão. Coesos, mas insubmissos, continuaram, a conservar os seus valores, que para si são fundamentais, sendo o seu pilar em comunidade e sociedade. Valores que se prendem com o culto da família, com o respeito pelas pessoas mais velhas, a proteção das crianças e o respeito pela mulher do outro.

No nosso país, foi atribuída a Cidadania Portuguesa na Lei Constitucional de 1822 a todos os ciganos residentes, passando a ser reconhecidos como Portugueses de pleno direito. Após este passo ainda prevalecem  uma série de fatores que concorrem para uma grande resistência à sua integração, tais como a: exclusão social, discriminação, dificuldade de mobilização, resistência à escolarização (cada vez menos), parcos recursos económicos, profissões tradicionais (em declínio) e obediência a regras internas muito fortes.

Portugal, como outros países da Europa, não integra a variável «etnia» nos censos, como forma de uma melhor integração dos cidadãos, mesmo os grupos específicos.

Com um número estimado entre 40.000 a 60.000 e com distribuição pelo território nacional de Norte a Sul, muitos ciganos portugueses carecem ainda de acesso a bens e serviços fundamentais, promotores da sua integração.

Os esforços realizados para a divulgação e valorização da cultura cigana ainda não desconstruíram os preconceitos que tendem a dificultar a aproximação das comunidades ciganas a outros grupos culturais, a bens e serviços, bem como a potenciar e reforçar desigualdades.

Os valores familiares ciganos, ainda que contrastantes com os princípios e valores que regulam a sociedade portuguesa, devem ser valorizados sempre que isso não coloque em causa os direitos consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição da República Portuguesa. 

Para tal, deverão ser encontradas formas de respostas às necessidades das famílias ciganas, nomeadamente criando condições que garantam a aquisição de competências de base ao desenvolvimento de processos de autonomia, capacitação e empoderamento das mulheres, em contextos familiares e comunitários favoráveis.

Se a elegibilidade com base na etnia não é aplicável em matéria de regimes e ações sociais, todavia, há legitimidade para encetar «ações positivas» junto desse segmento, legitimidade essa que assenta na ideia de que tem de haver “tratamento igual de situações iguais e tratamento diferenciado de situações desiguais” (artigo 10.º, idem).

A inclusão social das pessoas e comunidades  implica a partilha equitativa das responsabilidades associações representativas / defensoras das comunidades ciganas e famílias para compromissos de bem-estar e coesão social. Parceiros do setor de solidariedade e economia sociais, os media e professores, formadores, sindicatos, ordens e associações profissionais não são menos importantes. Por último a alocação de vontades e patrimónios das autoridades locais e regionais, empresas, bancos e o setor financeiro,  com maior relevância o Estado e o Governo.

A integração das comunidades ciganas só será efetiva quando existir uma cultura de participação de TODAS as comunidades na edificação de um espaço partilhado onde possam contribuir para a construção de uma sociedade em que caibam as diferenças das várias culturas e em que, simultaneamente, se sintam confortáveis com as cedências feitas, ou seja, um espaço que não coloque em causa os valores culturais de base de cada comunidade, no respeito pelos valores individuais bem como nacionais e constitucionais.

Tendo em vista que as representações sociais de não ciganos sobre ciganos podem envolver alguns elementos de conotação negativa, que possam colidir com as normas sociais vigentes na sociedade, sendo socialmente indesejáveis, é necessário que haja um esforço por parte da dita maioria no sentido de entender a cultura cigana e vice versa.

O preconceito é um fenómeno que emerge nas relações de conflito entre categorias sociais no contexto da formulação de representações sociais e das relações entre grupos sociais. O que geralmente advém do preconceito é o racismo. 

Em suma parece-me uma falsa questão alimentar este braço de ferro entre maiorias e minorias. Só o conhecimento individual alargado de cada um dos lados da barricada ajudará à diluição homogénea.

Antes de existirem ciganos, pretos, brancos, amarelos ou vermelhos, existem Seres Humanos, e cada um diferente do outro com a sua individualidade e diversidade muito própria. Se todos ganhássemos a capacidade de nos vermos como pessoas, talvez as sociedades fossem mais equilibradas e prósperas.

Ampliar o conhecimento dos grupos sociais é deveras importante para que os sujeitos possam refletir criticamente sobre crenças, sentimentos e práticas, visto que a reflexão crítica é considerada como “um dos instrumentos para a redução do preconceito e da discriminação” (Pérez-Nebra & Jesus, 2011, p. 232). O conhecimento, portanto, acerca da  história e do modo de vida, pode configurar uma estratégia para desmitificar concepções e estereótipos negativos que são comumente atribuídos, e que marcaram as sociedades em diferentes contextos históricos e geográficos.


Escrito em conjunto com Renata Teles

Natural de Santa Maria de Lamas, Licenciado e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pela Univ. Lusófona de Lisboa. Gestor, escritor, formador e desportista. Apaixonado pela sua terra e com orgulho na sua identidade é voz ativa na comunidade local.

Manuel Pinto
Gestor
👁️‍🗨️ Você é o leitor DF número
  • 1.974.517
    ☕️ Antes de ir embora:

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.