A história e os segredos do sócio n.º19: o guardião da história lamacense

A história e os segredos do sócio n.º19: o guardião da história lamacense

Carlos Silva é uma lenda viva em Lamas – uma vida dedicada aos rubro negros e à freguesia

▌Carlos Silva, no seu mini museu do clube | Foto: DR

Todos os fãs de futebol esperam com ansiedade para que os estádios reabram, para que se possa desfrutar mais uma vez do espetáculo do desporto rei em Portugal; em Santa Maria de Lamas provavelmente ninguém mais terá essa saudade que Carlos Silva – um aficionado que levou o amor que tem pelo União de Lamas e pela sua freguesia a outro nível.

Se for ao Estádio Comendador Henrique Amorim, tenha muita atenção onde se vai sentar – a Cadeira 11 está reservada para um elemento muito especial da comunidade lamacense: Carlos silva, o sócio n.º 19 do clube, União de Lamas.

Com 74 anos, este homem cresceu com o seu clube de coração, que tem apenas mais 14 anos que ele próprio.  Representou o emblema rubro negro durante 15 épocas; foi treinador do clube por duas épocas e um dos fundadores da secção dos Veteranos do União de Lamas, da qual foi presidente durante 25 anos.

A paixão de Carlos Silva nasceu no lugar do Carrascal em Santa Maria de Lamas, a casa onde vivia fazia de vedação para o mítico Campo do Carrascal e este tornou-se na sua segunda casa. 

Em criança os jogadores equipavam-se na cozinha da sua casa – um contacto privilegiado que deixou um impacto num menino que se mais tarde se iria tornar num historiador autodidata.

E como historiador, Carlos Silva passou anos a desfolhar jornais antigos na Biblioteca Municipal da Feira e na Biblioteca Municipal do Porto.

Uma pesquisa exaustiva que acumulou um espólio escrito sobre futebol, com fotos, resultados desportivos desde 1932 e quase todos os acontecimentos sobre Santa Maria de Lamas e o União de Lamas.

▌Passou anos em bibliotecas a vasculhar tudo o que diz respeito a Lamas | Foto: DR

Este envolvimento no passado lamacense deu lugar ao colecionismo – coleção esta que hoje é o maior espólio histórico dos Unionistas e soma ainda várias memórias da freguesia que criou Carlos Silva.

Meticuloso e organizado, Carlos Silva tem tudo guardado e catalogado em pastas de arquivo. A sua filha, Ana Paula, revelou que depois de “regressar do Ultramar, tudo o que dizia respeito ao União de Lamas era guardado ou arquivado.”

Carlos Silva guardou, ao longo dos anos fotos, chuteiras, medalhas, taças, faixas de campeão, galhardetes, camisolas, livros de futebol e apontamentos sobre o trabalho dos treinadores. Uma coleção que atualmente já ascende a mais de mil peças.

A sua filha não tem dúvidas: “era uma acumulação saudável de material valioso que registava a sua passagem pelo futebol e que perpetuava os momentos de glória que viveu”, e depois de anos desta acumulação era necessário “fazer alguma coisa para a sua manutenção salutar”, explica Ana Paula, para isso Carlos Silva criou um espaço museológico em casa.

Os artigos mais antigos no espaço transcendem o clube; pode-se ver documentada a edificação da nova Igreja e todo o processo de construção; o início da indústria corticeira e o transporte de cortiça da estação de caminho de ferro de Esmoriz para Lamas, em carros de bois.

Neste espaço também se pode ver como a freguesia transformou as suas estradas de cascalho para paralelepípedos e a mudança do nome da aldeia “Lamas da Feira” para a “Santa Maria de Lamas.”

Ao espólio material, junta-se ainda o imaterial: Ana Paula gostava que o seu “pai transformasse em livro as suas múltiplas histórias e memórias” – a filha de Carlos Silva não tem dúvidas este “espólio é ainda mais valioso do que aquele que ele tem materializado no museu.”

Uma filha ‘babada’ com um orgulho muito especial pelo pai – não tem dúvidas que ele “é a alma viva do Lamas” –  um adepto com mais de sete décadas de paixão que “continua com o mesmo espírito bairrista” de sempre.

Honesto e transparente no que toca ao futuro das suas paixões, a freguesia e o clube, Carlos Silva é crítico, se necessário, “com a mesma legitimidade e autoridade que um pai faz a um filho.”

No concelho de Santa Maria da Feira algumas freguesias já tem a sorte de ter um Carlos Silva, em Canedo, por exemplo, um emergente jovem de 17 anos – Emanuel Alexis – escreveu um livro sobre a história da sua freguesia.

Mas um Carlos Silva faz falta em qualquer freguesia – não há valor que se possa atribuir a alguém dedicado à história das suas gentes e da sua terra, de espírito regionalista com orgulho do seu passado e empenhado a transmiti-lo às gerações do futuro.

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