Dos palcos à máquina de costura: a luta de uma artista da Feira no Covid-19

Dos palcos à máquina de costura: a luta de uma artista de Santa Maria da Feira no Covid-19

“Queremos trabalhar – não queremos estar em casa a receber um subsídio e a olhar para o teto”

▌Maria Rosa acredita que que na Feira "muitos projetos vão cair"

Numa altura em que o concelho se prepara para o regresso à normalidade, intensifica-se o estrangulamento financeiro daqueles que sobrevivem da arte e cultura — situação que poderá agravar com os espetáculos cancelados até dezembro.  

No concelho da Feira e à semelhança do resto país, o ‘lockdown’ provocado pelo surto de coronavírus encerrou centenas de eventos de pequeno e grande formato — entre eles destaca-se o Imaginarius e a Viagem Medieval que atraem ao concelho mais de um milhão de pessoas e uma receita agregada de quase um e meio milhões euros.

Os organizadores tentaram adiar ou reformular alguns dos eventos, mas o cancelamento tornou-se inevitável e o seu regresso fica agendado para 2021, se até lá já houver luz ao fundo do túnel para o fazer.

Entretanto, aqueles que vivem da cultura e artes vêm as suas vidas apertadas por um sufoco invisível — Maria Rosa, que preferiu manter o anonimato, é uma artista natural de Santa Maria da Feira ligada à arte cénica e musical que tenta reinventar novas formas de sustento.

Hoje e até ao final do ano, Maria Rosa vê a sua vida em stand-by, porque “até setembro já foram cancelados seis ou sete espetáculos” e até ao Natal “todos os espetáculos que estávamos a negociar estão em suspenso — ninguém está a assumir compromissos”.

A artista acredita que a pandemia “vai afetar muita gente e debilitar a forma como se faz arte no concelho” — “há artistas que não vão aguentar este período” e “se calhar, vão ter de mudar de profissão”, diz, referindo que há talentos que se vão perder e há projetos que vão cair, porque “estamos todos nesse limiar”.

Para contrariar a asfixia económica, Maria Rosa canalizou as suas habilidades para outra atividade — o dedal e a agulha que produziam roupas para espetáculos, criam agora máscaras de proteção individual, originais, adornadas com rendas, desenhos e “muito bling”.

Quanto à costura, tudo começou numa vida passada, muito “antes de estar ligada às artes cénicas”, explica a artista ao desvendar uma passagem pelo mundo da moda durante a formação como design. 

A criatividade da artista choca com o cenário de pandemia e da sua máquina de costura saem máscaras de proteção originais que dão a esta ‘nova indumentária’ um aspeto mais apetecível.  

“O nosso imaginário é insondável”, diz ao confessar que “não fui a correr comprar tecidos, peguei no que tinha, olhei para aquilo e pensei: o que será que posso construir com isto?”.

Como não pretende fazer disto o seu negócio principal, a artista não deseja que este novo trabalho prospere por muito tempo — “seria mau sinal” e significaria “que as coisas não evoluíram” e que o trabalho, “que realmente gosta”, não o pode fazer.

Para atenuar os efeitos nefastos da pandemia na cultura do concelho, Maria Rosa acredita que é “urgente o município de Santa Maria da Feira tomar medidas”, e dá como exemplo “o apoio de projetos de criação em confinamento, porque o artista não está incapacitado de criar só porque está em casa” —  a artista vai mais longe e dá o exemplo de que seria uma boa altura para esboçar projetos futuros como o do Imaginarius de 2021.

A finalizar Maria Rosa salienta que “a criação não está inibida, queremos trabalhar – não queremos estar em casa a receber um subsídio e a olhar para o teto”.

Pode ver o trabalho completo de Maria Rosa acedendo ao seu facebook AQUI.

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