Crónica: Canedo na história das Pestes

Canedo na história das Pestes

A história leva-nos até ao ano de 1505 – altura em que a região foi fustigada pela peste

Nas terras de Santa Maria da Feira, a história das pestes leva-nos até ao ano de 1505 quando estas foram assoladas por um grande surto de peste que trucidou grande parte da população. Então, as suas gentes prometeram oferecer todos os anos ao mártir São Sebastião um pão doce, a que chamaram de Fogaça, em troca de proteção.

Ano após ano a tradição ia-se cumprindo, mas o que é certo é que durante os anos de 1749 e 1753, o povo feirense não cumpriu a tradição e a peste voltou. Posto isso, a 30 de julho do mesmo ano de 1753, o infante D. Pedro, irmão de D. João V, impôs à Câmara Municipal a obrigação de assumir para todo o sempre a Festa das Fogaças e para a qual o Infante despenderia 30 mil reis. Daí em diante a tradição tem-se cumprido, conservando-se para o efeito o dia 20 de janeiro, considerando-o como feriado municipal.

De certo modo, em Canedo e arredores ouvi relatos sobre a lepra e outras doenças que assolaram a freguesia, mas o único dado escrito vem de Augusto Barbosa de Pinho Leal que diz o seguinte no seu livro “Portugal Antigo e Moderno”:

“MOSTEIRO—sítio da mesma freguezia, 8 quilómetros ao SE. da igreja paroquial. É um monte, em forma de península, cercado pelo rio Inha, ficando-lhe o istmo a E.S.E., na encosta Ocidental do monte da 0ssa. Chama-se a este sítio vulgarmente, Mosteiro do Ribeiro. Fica a 2 quilómetros ao S. do rio Douro.

Este monte, que é hoje um bosque, está por todos os lados cercado de outros montes mais altos, e é em sítio ermo, senido a povoação mais próxima a pequena e pobre aldeia de Rebordelo, também da freguesia de Canedo. Esta aldeia e a de Mosteirô do Ribeiro pertenciam à freguezia de S. Cipriano, de Parada do Monte, suprimida há mais de 500 anos.

Segundo a tradição, havia em Mosteiro do Ribeiro, um mosteirinho (donde lhe provém o nome) de freiras benedictinas, e uma pequena aldeia. Em 29 de setembro de 1348, principiou em Portugal o terrível contágio, chamando a morteydade ou peste grande, que, apesar de durar só três meses, marcou época na história portugueza pelo horroroso número de vítimas a que deu causa. (4. 8 vol., pág. 388s cel. 2.»)

Segundo a tradição, nem uma só pessoa do mosteiro ou da aldeia escapou ao pavoroso contágio. Foi tal o terror dos povos circunvizinhos, que sete anos ninguém se atreveu a ir a Mosteiro do Ribeiro. Passados eles, principiaram a ir ali algumas pessoas, em busca dos objetos pertencentes aos falecidos, e consta que debaixo dos entulhos apareceram algumas pipas, cheias de vinho, em muito bom estado.

Do mosteiro e da povoação apenas restam alguns alicerces de casas, e de paredes de campos e socalcos, indicando que tudo era pequeno e pobre. Nunca mais foi habitado este monte, que se dividiu em diferentes possuidores. Um lavrador do lugar de Pessegueiro (freguesia do Vale, concelho da Feira) ê hoje o único possuidor de todo o monte, por compras que fez aos seus diferentes proprietários. (..)”

Pinho Leal, no quinto volume da obra do ano de 1875, escreve sobre esta terra a que vulgarmente os habitantes de Canedo chamam de “Carvalhosa”, local que outrora fora da freguesia sobre uma grande peste que assolou aquelas gentes e as gentes circunvizinhas. Verdade ou não, nesse local não existem pessoas, simplesmente se veem montes, uma ponte sobre o rio Inha que dá passagem para o lugar de Rebordelo e vestígios de pequenas edificações antigas.

Retirando os momentos da história feirense marcados pelas doenças contagiosas já supramencionadas, não existem informações arquivadas sobre outros momentos de grandes pestes nestas terras, como, por exemplo a Gripe Espanhola de 1918, somente existem relatos populares que em muitos dos casos não são muito percetíveis de análise. Coincidência ou não, durante a Gripe Espanhola de 1918 que dizimou milhares de portugueses, ou seja, durante os anos de 1918, 1919 e 1920, em Canedo os óbitos tiveram um acentuado aumento, sendo o ano de 1919 o maior com 96 óbitos, mais 25 a 30 óbitos em contraste com outros anos, repetindo-se um valor parecido no ano de 1921, 91 óbitos. Este facto também é visível em outras freguesias do Concelho da Feira durante este período atribulado.

Porém, a análise destas informações é muito importante para explorar ao mais profícuo pormenor os momentos mais embaraçosos da história não só das Terras de Santa Maria da Feira, mas também de todas as terras que outrora pertenceram às Terras de Santa Maria, bem como em momentos próximos tê-los como exemplos.

Natural de Canedo, estudante de Administração Pública na Universidade de Aveiro.
Estudante, Escritor e Agente Associativo Estudantil e Local.
Emanuel Alexis
Estudante Universitário
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