Ele na Feira, ela em Esmoriz: uma família separada por um vírus

Ele na Feira, ela em Esmoriz: uma família separada por um vírus

Uma cidade fantasma: “Parece ridículo, mas sinto-me mais segura assim”

Do seu apartamento, Catarina mostra-nos uma cidade fantasma

A Administração Regional de Saúde adotou medidas ainda mais rigorosas para o concelho de Ovar — isolou e trancou a população, pedindo que se limitem as saídas e a interação social. Esmoriz não foi exceção e há, agora, casais feirenses a viver em total isolamento.     

Texto: Tânia Silva Imagem: Ventura Santos

A entrevista foi realizada por telefone a um casal que reside há seis anos em Esmoriz — ontem, face ao trabalho e à incerteza das medidas anunciadas, o marido optou por dormir em Santa Maria da Feira; Catarina Mateus, de 29 anos, começou a quarentena geográfica como mãe solteira de duas meninas: uma de um ano outra de três anos. 

A jovem mãe explica que tomaram esta decisão por força do trabalho e das necessidades da empresa — “respirei fundo, e depois de amadurecer a decisão, por mais estranho que pareça fiquei mais relaxada porque acabei por sentir-me mais segura ao perceber que em casa tinha mais controle sobre o que as minhas filhas e eu entramos em contacto”. 

O grande receio da família prende-se com a filha de um ano que por razões de saúde “pertence ao grupo de risco — faz muitas bronquiolites e ainda há bem pouco tempo esteve internada um mês no hospital”.

Esmoriz é uma cidade deserta, sem o título de cidade fantasma porque ocasionalmente ainda se veem pessoas, sobretudo “quem vai passear os cães”, diz ao explicar que “não estamos proibidos de sair, nem é um isolamento total”, é uma medida preventiva que “incentiva a não sair de casa — podemos sair e ir às lojas, embora aqui à volta o comércio está completamente fechado, incluindo as padarias”.  

Quanto à despesa, Catarina refere que “quando começaram a aparecer as primeiras notícias, compramos um bocadinho mais”, reforçando o atum, as salsichas, o arroz e a massa — produtos de validade alargada onde incluiu papas e cerelac para as meninas. Se, na altura, o reforço pareceu alarmista, hoje, reconhece que não foi “nada de exagerado porque não tínhamos noção que ia ser assim”.

A necessidade de evitar o contacto social e as visitas ao supermercado, obrigam a uma gestão rigorosa da comida — Catarina sublinha um planeamento redobrado com as refeições.

“Queria pão, mas não há e iogurtes também já não dou todos os dias, tento intercalar os produtos diários com refeições de papa ou cereais”. 

Ao segundo dia de isolamento a diversidade da despensa já começa a dar sinais,  especialmente nos produtos de validade mais curta, mas a segurança das filhas vem primeiro e, como realça, nos piores dos cenários temos comida para mais duas ou três semanas, nem tenha de comer massa com massa ou arroz arroz.

Ocupar as meninas, sem vir à rua é de facto uma tarefa difícil e ligeiramente mais complicada do que esperava sobretudo para quem se vive num apartamento.

“Num apartamento, o dia a dia começa a ser difícil. Numa casa vens cá fora e consegues fazer mais coisas, num apartamento tens de dar asas à imaginação”, diz, relembrando que até as atividades alternativas obrigam a uma reflexão — “ontem para diversificar o dia, sugeri fazermos um bolo, mas de repente lembrei-me que leva muitos ovos e não os posso gastar assim”, por isso entre filmes e histórias, “elas pintam e fazem alguns trabalhos manuais”. 

Quanto ao marido, Joaquim, Catarina confessa que “ele acha que o controlo (geográfico) não será tão apertado, mas o cenário mais provável é que só regresse a casa entre sexta ou sábado”. Apesar da distância, as medidas impostas são “para o bem de quem aqui mora”, diz, referindo que, agora, a sua preocupação está com os pais que por residirem numa grande cidade, estão naturalmente mais expostos à pandemia.   

Os meus pais estão no Porto e deixaram de andar de transportes públicos porque as pessoas já olham de forma estranha umas para as outras, aqui estou isolada no meu canto, sem outras pressões”. 

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