Crónica: Homem que é homem não ajuda em casa…

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Crónica: Homem que é homem não ajuda em casa…

Não passaram tantos anos assim ( apenas 46 ) da época onde imperavam as máximas pedagogicas Deus, Pátria e Familia, valores supremos cultivados pelo regime Salarazarista, ilustrados e eterniazados no cartaz de Martins Barata. O culto religioso aliado ao culto à pátria eram os expoentes máximos a par do valor da familia.

O conceito perpetuado de familia impunha a figura do Pai como chefe máximo do lar e o único sustento da casa. Ao invés a mulher e esposa era a figura de subserviência que se confinava ao lar e às suas lides. Equacionar a hipótese de a mulher ter um trabalho fora do seu lar era entendido como uma ameaça à estabilidade familiar e à formação moral das gerações.

Por este caminho andou a nossa sociedade durante esses tempos de ditadura. Cultivamos a prática do machismo e do sexismo durante décadas e hoje quando aparentemente extintos parece ainda haver ramificações.

Paira ainda a ideia da inferiorização da mulher, a ideia de que o homem é superior. Estereótipo vincado no mercado de trabalho, no desporto ou em casa na relação com as lides domésticas.

Homem que é homem não ajuda em casa, cumpre com as suas responsabilidades! 

Homem que partilha a casa com quem ama seja com cônjuge, seja com os seus filhos não ajuda. Um homem não pode ajudar alguém com uma coisa que é da própria responsabilidade.

Impõe-se em tempos de evolução cultural que as crianças cresçam num lar onde passar a ferro, cozinhar, limpar o pó, lavar a casa de banho, estender, dobrar e guardar a roupa não seja visto como uma tarefa da mãe ou do pai, mas sim algo da obrigação de todos e onde todos os constituintes do lar tem as mesmas responsabilidades.

Um Domingo à tarde, no meu lar, tomava uma bebida com um amigo ao mesmo tempo que engomava a roupa e actualizavamos “as nossas vidas”.

Sentia-o perplexo, enquanto me observava com ar de índio da Amazónia perdido no deserto do Sahara.

Mantínhamos o nosso diálogo, quando subtilmente me pergunta: “sabes passar a ferro?!(como que se estivesse a andar de bicicleta) fico mesmo admirado contigo, a tua mulher deve adorar não ter que passar a ferro.É uma grande ajuda de tua parte!

Larguei o ferro (não fosse o ferro de tecnologia avançada tinha feito um buraco na tábua), olhei-o nos olhos e expliquei-lhe: não ajudo a minha mulher. Ela está a trabalhar e eu não.Jamais faria sentido ela chegar casa e ainda ter que engomar a sua roupa, muito menos a minha. Ela não precisa de ajuda precisa de um homem que a ame. Ela não precisa de um chefe em casa, precisa de alguém que a receba com um abraço, com o maior carinho e lhe dê um ouvido, que lhe sirva o jantar.

Ela é a “minha mulher” não é a minha empregada.

Ela é a “minha mulher” não é a minha cozinheira.

Ela é a “minha mulher” não é minha propriedade.

No fundo, esta questão inconsciente é reflexo da cultura machista que nos foi incutida directa ou indirectamente. Talvez tenhamos sido ensinados que todas estas tarefas são da responsabilidade das nossas mães e das nossas companheiras.Hoje, nada mais errado!

A mudança verdadeira na sociedade começa dentro dos nossos lares. Não sou pai mas almejo um dia poder ensinar aos meus filhos o verdadeiro sentido dos conceitos companheirismo e amor.

Lembre-se, homem que é homem não ajuda em casa, cumpre com as suas responsabilidades! 

PS: o meu amigo aprendeu a engomar.

Natural de Santa Maria de Lamas, Licenciado e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pela Univ. Lusófona de Lisboa. Gestor, escritor, formador e desportista. Apaixonado pela sua terra e com orgulho na sua identidade é voz ativa na comunidade local.

Manuel Pinto
Gestor
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