Opinião: Mutilação Genital Feminina: Crenças, desigualdade e objetificação

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Opinião: Mutilação Genital Feminina: Crenças, desigualdade e objetificação

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que entre 100 e 140 milhões de meninas e mulheres em todo o mundo tenham sido submetidas a esta prática humilhante e com sequelas eternas na vida de uma mulher.Não menos preocupante é saber-se que existem 3 milhões de meninas em risco de sofrer uma mutilação genital. 

Apesar desta prática ocorrer um pouco por todo o mundo, a maior incidência regista-se em África onde há registos do ritual em pelo menos 29 países contabilizando cerca de 92 milhões de vítimas.

Grande parte dos motivos apresentados para a manutenção desta prática prende-se as razões de aceitação social e religiosa, desinformação sobre higiene e na convicção de que será um modo de preservar a virgindade tornando a mulher “casável” e ainda ampliando o prazer masculino.

Trata-se efectivamente de uma prática de objetificação da mulher e desigualdade de género assente em crenças sociais e religiosas (embora nenhum dos textos sagrados de Cristãos, Judeus, Muçulmanos prescreva a MGF) e consequente descriminação.

Repudiável no avanço cultural e civilizacional que acompanha a evolução do Homem e os seus valores.

Então mas o que é a Mutilação Genital Feminina (MGF) ? A definição da OMS a mutilação genital feminina inclui todas as intervenções que envolvam a remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos externos, ou que provoquem lesões nos órgãos genitais femininos, por razões não médicas.

 Esta definição considerando a gravidade do problema é ainda mais abrangente apresentando 4 tipos de mutilação. Do tipo 1 ao tipo 4, o sofrimento, a angústia e o trauma são os “extras” “oferecidos” às mulheres. No tipo 1 são enquadrados os casos, imagine-se, da remoção parcial ou total do clítoris. A chacina vai aumentando até ao grau 4 onde, note bem, as intervenções passam pelas perfurações, incisões, escarificações (cicatrizes) e cauterizações (queimaduras).

Dos 0 aos 15 anos, é o intervalo definido para o massacre. As consequências são nefastas.Para além da coação física, da dor crónica, das infeções, das hemorragias, das complicações no parto, há que somar as consequências psicológicas como, por exemplo, o stress pós-traumático.

Serão estes actos validáveis/toleráveis entre seres humanos?! Não! No entanto as fortes crenças, superstições e falta de conhecimento sobrepõe-se ao racional humano.

Geralmente as estruturas de ordem social e política enraízam estas crenças e os seus opositores podem estar sujeitos à condenação e desonra, à perseguição e ao ostracismo.

Deste modo a MGF é vista como uma convenção social acompanhada por recompensas e punições que fomentam a continuação da prática.

As crenças são de tal forma enraizadas e alimentadas entre as comunidades que a MGF passa a ser vista como necessária na correta educação de uma menina e na preparação para a idade adulta e casamento.

É este é sem sombra de dúvida um problema cultural a que ninguém deve ficar indiferente. Creio que o combate só pode ser feito com informação e desconstrução de mitos. Penso que a resolução deste problema passará pelo empoderamento da mulher no sentido da desconstrução de conceitos que alimentam a ideia que só perdendo parte de si se tornam mulheres, um verdadeiro contrassenso.

Acabar com este flagelo não é de todo tarefa simples, requer um compromisso sólido e a longo prazo por parte de governos e entidades. As intervenções devem ser multissectoriais, sustentadas, aplicadas e conduzidas pela comunidade cujo principal objectivo implica encorajar um número significativo de famílias ao abandono da prática. A decisão de abandono deve ser colectiva e explícita, para que cada família possa confiar no abandono simultâneo por parte das restantes.

É importante que este tema não fique escondido.

A cooperação entre governos, entidades e comunidades deve existir de forma objectiva e concisa. A sociedade civil tem um papel activo na erradicação deste problema. As nossas escolas devem também contribuir e abordar o tema como forma de consciencializar.

É necessário que nos dispamos de preconceitos!

Natural de Santa Maria de Lamas, Licenciado e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pela Univ. Lusófona de Lisboa. Gestor, escritor, formador e desportista. Apaixonado pela sua terra e com orgulho na sua identidade é voz ativa na comunidade local.

Manuel Pinto
Gestor
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