Opinião: 2020 – Annus mirabilis para o comentário político

Opinião: 2020 – Annus mirabilis para o comentário político

Para aqueles que seguem o panorama político nacional e regional com algum afinco, o ano de 2020 é, a início, alvo de expetativa, para o qual se estimam diversos momentos de interesse. 2020 arrisca-se a ser um ano singular da política, mesmo sem eleições (pelo menos agendadas à partida) que tendem a ser interpretadas, por muitos, como o momento alto da política. No entanto, após o acordo parlamentar à esquerda que durou uma legislatura (comumente e popularmente designado de Geringonça) a análise dos momentos a montante e a jusante das eleições ganharam novas dimensões nas análises políticas.

Assim, após um ano marcado por eleições para o Parlamento Europeu, Governo Regional e Assembleia da República, seria de esperar que 2020 fosse mais pacífico.

 

Todavia, o resultado saído das últimas eleições, do qual surgiu um Governo sem maioria parlamentar, tornaram tudo ainda mais interessante (do ponto de vista de um analista político, entenda-se).

No cenário governamental, a nova realidade trouxe para primeiro plano os movimentos de bastidores. Com um Governo de apoio parlamentar minoritário, sem acordo formal à esquerda ou à direita para aprovação, na generalidade, do Orçamento do Estado, estima-se muito trabalho de formiga por parte de assessores e dirigentes partidários, o qual se condimentará com muita especulação e análise. 

No âmbito da Assembleia da República, os primeiros meses da legislatura já trouxeram à clareza dos dias que os novos partidos com assento no Parlamento apenas trouxeram mais circo e nenhum conteúdo. No entanto, poderão vir a brilhar na discussão do Orçamento ou até em temas fraturantes como a eutanásia. Porém, não deixa de ser interessante a preocupação de alguns partidos (ditos grandes) em se reajustarem para que o eleitorado não fuja para estes novos atores “circenses” recentemente chegados. 

Ainda a nível nacional, teremos os debates em torno do Sistema Nacional de Saúde (cuja maleita parece não ter fim), da Educação, nomeadamente sobre a carreira e envelhecimento do corpo docente e a falta de assistentes, dos transportes e da reforma falhada da política florestal.

Isto para não falar das finanças onde a continuar assim teremos uma substituição de verão, mas até lá as cativações é para continuar.

Noutra via em paralelo teremos o surgimento de personalidades a correr para Belém com Marcelo a levar avanço e a continuar a ser um bom Relações Públicas, mas um mau Presidente da República que teima em aparecer para a fotografia e a não impulsionar o país para o rumo certo. É como quem diz o Presidente dos afetos, que isto vai lá é com abraços e a solidariedadezinha. 

Depois para encher as grelhas televisivas teremos sempre mais uns casos de corrução cuja culpa é de todos e não é de ninguém. Até porque o sistema está feito para que assim seja. Teremos ainda avanços em casos judiciais mediáticos, como o Marquês que a início fazia crer que os “sistema” estava diferente, mas afinal descobriu-se que os duendes irlandeses existem e que têm potes de ouro escondido em Portugal. E assim, talvez com a magia se explique o inexplicável. É que a Justiça é cega, mas tem olfato, e todos sabemos que há umas classes com um cheiro diferente que tende a hipnotizar. 

Relativamente à vida interna dos partidos estima-se, para além da habitual atividade, a eleição de novas direções no PSD e CDS já em janeiro e do PCP em dezembro com a realização do Congresso. Se por um lado as eleições internas do PSD têm aumentado as vendas de pipocas a nível nacional, por outro a especulação sobre um eventual novo Secretário Geral do PCP saído do novo Comité Central tem animado discussões e o lançamento de vários nomes, mais fora do partido do que dentro diga-se, facto que também não deixa de ser relevante.

Passando pelo movimento sindical, a CGTP terá também novos dirigentes a assumir cargos de responsabilidade acrescida, de onde se destaca um novo Secretário Geral, uma vez que, pelos estatutos em vigor, o Arménio Carlos não poderá ser reconduzido por motivos de idade.

Por terras de Santa Maria o PS terá nova concelhia que será votada no início do ano. Estima-se ainda algumas alterações de representantes nas distritais noutros partidos e até alterações na própria Assembleia Municipal, com especial ênfase nos partidos mais à esquerda. Se a estas alterações se acrescentar o crescente descontentamento de diversos Presidentes de Junta de Freguesia relativamente à Câmara Municipal, teremos certamente muitos temas para debate e não faltarão notícias aos jornais. Todavia, não se pode ignorar que estamos já na segunda metade do mandato, sendo expectável que a Câmara comece a abrir os cordões à bolsa, por um lado para satisfazer e minorar o descontentamento dos Presidentes de Junta e por outro para cativar eleitorado, é que 2021 é ano de eleições autárquicas.

Com as Autárquicas em 2021 espera-se que o próximo ano seja também marcado pelo alinhar das fileiras para o ano de eleições, com o surgimento de novos “paraquedistas” e o trazer a lume as estratégias que têm estado a ser preparadas na sombra.

A tudo isto, acrescenta-se que 2020 é o último ano em que as Câmaras Municipais podem recusar a descentralização (ou como quem diz desresponsabilização do Governo Central) no respeitante a diversas áreas. Isto trará uma nova realidade muito mais complexa para as populações e para as autarquias, que levará até a um reajustamento de diversas instituições. 

Por tudo isto, o ano de 2020 tem potencial, ainda que incerto, para ser um annus mirabilis para a análise e comentário político. Todavia, tenho a convicção e certeza de que este potencial annus mirabilis não trará alterações de fundo (ou mesmo de superfície) que tragam maior democratização no acesso à riqueza por parte da grande maioria da população. Se à mediocridade das políticas seguidas no panorama nacional se juntar a corrida pelo armamento internacional, o irromper de novos conflitos armados, a incapacidade de gerar consensos em temas fundamentais como o ambiente e, entre outros, os processos ditatoriais em curso à escala global, há pouca esperança para que seja um Ano Luz.

 

Professor e Investigador, eleito na Assembleia Municipal pela CDU e membro da Direção Regional de Aveiro do PCP
Filipe Moreira
Professor / Investigador

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